Empreendedorismo e autonomia ganham espaço entre as aspirações dos mais pobres
Pesquisador explica como a busca por renda, tempo livre e independência transformou a relação desse grupo com o mercado de trabalho
A classe mais pobre, que representa a maioria da população brasileira, ocupa hoje um papel central nas decisões econômicas, sociais e políticas do país. Para Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, esse grupo não tem uma posição única sobre um Estado maior ou menor, mas concorda em um ponto essencial: é preciso que o Estado funcione.
Em entrevista à Agência Brasil, o pesquisador destacou que essa parcela da população reúne a maior parte dos consumidores, trabalhadores urbanos, pequenos empreendedores, usuários de serviços públicos e eleitores. Por isso, suas expectativas influenciam diretamente o debate público e ajudam a medir o humor social do Brasil.
De consumo a mobilidade social
Meirelles lembra que, após o Plano Real e os ciclos de distribuição de renda, a classe C passou a planejar mais o futuro e ampliar seus sonhos. Antes, o objetivo podia ser comprar alimentos e sobreviver ao fim do mês; depois, vieram metas como viajar de avião, entrar na universidade e melhorar a qualidade de vida da família.
Esse avanço, segundo ele, também movimentou a economia. Famílias com mais renda passaram a consumir mais, o que estimulou pequenos negócios e a indústria, gerando empregos e ampliando a presença da classe C como força econômica relevante.
Frustração com a desaceleração
O pesquisador afirma que a partir de 2010 e 2011 a economia deixou de crescer na mesma velocidade, e isso provocou uma sensação de freio nas conquistas. A percepção de desaceleração afetou o poder de compra, a expectativa de ascensão e até a relação com a política.
Na visão de Meirelles, essa frustração se intensificou em 2013, quando muitos sonhos passaram a parecer mais distantes. A crítica ao aumento da presença da classe C em espaços antes restritos, como aeroportos e empregos formais com direitos, expôs tensões sociais e um incômodo das classes mais altas com as mudanças em curso.
Trabalho, autonomia e Estado eficiente
Para a classe C, a dignidade hoje está ligada à autonomia sobre o próprio tempo. Isso ajuda a explicar a adesão a aplicativos, o interesse por empreendedorismo e a menor centralidade da CLT como promessa de realização profissional completa. A pandemia reforçou esse movimento, ao mostrar que atividades feitas em casa poderiam garantir renda e independência.
Na avaliação de Meirelles, esse grupo está cansado da política tradicional e quer menos discurso e mais resultado. No lugar da disputa sobre um Estado grande ou pequeno, o que prevalece é a cobrança por serviços públicos melhores, menos burocracia e mais prestação de contas entre governantes e governados. (com informações de Luiz Claudio Ferreira, da Agência Brasil)