Advogado ostentação que apoiou Bolsonaro, trabalhou com Doria e Pablo Marçal é alvo de operação

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Por da Revista Fórum

O advogado Nelson Wilians: vida de luxo

O Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (CIRA/SP) deflagrou, na manhã desta quarta-feira (15), a Operação Distrato para investigar um suposto esquema de comercialização de créditos tributários falsos de ICMS utilizado por empresas para reduzir ilegalmente o pagamento de impostos ao Estado. Segundo os investigadores, a fraude teria causado prejuízo superior a R$ 3,8 bilhões aos cofres públicos.

Durante a operação, agentes cumpriram mandados de busca e apreensão no escritório e na residência do advogado Nelson Wilians, fundador do escritório Nelson Wilians Advogados (NWADV). A defesa foi procurada para comentar as acusações, mas não havia se manifestado até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto.

Atuação de escritórios e consultorias
De acordo com o CIRA/SP, empresas ligadas a Nelson Wilians ofereciam créditos de ICMS com desconto, apresentados aos clientes como parte de planejamentos tributários supostamente autorizados pelo Fisco.

Segundo a investigação, após aderirem ao modelo, as empresas deixavam de recolher integralmente o imposto devido e remuneravam os intermediários por meio de honorários de êxito que poderiam chegar a 70% do valor dos créditos utilizados.

Os investigadores afirmam que o grupo fornecia documentação para viabilizar a inserção dos créditos nas escriturações fiscais das empresas, permitindo a compensação indevida dos tributos.

Operação cumpre 38 mandados
Ao todo, a Justiça autorizou o cumprimento de 38 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas, Jundiaí, Ribeirão Preto, Londrina e Cambé (PR). As ordens foram expedidas pela 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital.

Além de Nelson Wilians, a advogada Mayra Fahur de Paula, do escritório De Paula Advogados e Consultoria Jurídica, também foi alvo da operação. Segundo o CIRA/SP, ela exerceria papel de liderança na suposta organização e teria atuado em conjunto com Wilians. A reportagem tenta contato com a advogada e sua defesa.

As investigações apontam ainda a participação de escritórios de advocacia, consultorias e empresas intermediadoras responsáveis por captar clientes, elaborar contratos, emitir pareceres jurídicos e orientar a utilização dos créditos tributários considerados irregulares.

Centenas de empresas
Segundo a Secretaria da Fazenda de São Paulo, a investigação identificou uma ampla estrutura de utilização dos créditos tributários.

Até o momento, foram instauradas 874 Ordens de Serviço Fiscal para apurar quase 10 mil lançamentos suspeitos. Os auditores identificaram mais de 850 empresas envolvidas e lavraram 746 autos de infração que somam mais de R$ 3,8 bilhões em créditos tributários cobrados pelo Estado.

A Operação Distrato busca reunir provas para identificar os beneficiários econômicos do esquema e apurar possíveis crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, estelionato, falsidade documental e delitos contra a ordem tributária.

Investigado em caso do INSS
Esta não é a primeira vez que Nelson Wilians se torna alvo de uma operação policial. Em setembro de 2025, a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em sua residência e em seu escritório durante a Operação Cambota, segunda fase da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de descontos não autorizados em benefícios pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Na mesma operação, também foi alvo de buscas Fernando dos Santos Andrade Cavalcanti, ex-sócio de Wilians. Durante o cumprimento dos mandados, os agentes apreenderam esculturas e obras de arte nos imóveis ligados ao advogado.

Na investigação sobre o INSS, relatórios da Polícia Federal apontaram movimentações financeiras consideradas expressivas entre empresas ligadas a Nelson Wilians e o empresário Maurício Camisotti, apontado como um dos operadores do esquema. Em depoimento ao Congresso Nacional, o advogado negou participação em qualquer irregularidade. Sua defesa sustenta que todas as movimentações decorreram da atividade regular do escritório e afirma que ele colabora com as investigações.

Ostentação nas redes sociais
Além da atuação jurídica, Nelson Wilians construiu uma imagem pública marcada pela exposição de seu patrimônio nas redes sociais. Em seus perfis, costuma compartilhar registros de mansões, aeronaves particulares, carros de luxo, viagens internacionais e outros bens de alto valor, reunindo mais de 1,4 milhão de seguidores no Instagram.

Fundador do Nelson Wilians Advogados (NWADV), escritório criado em 1999 e que atua em todo o país, o advogado passou a se apresentar também como empresário do setor jurídico. A banca afirma contar com mais de 1.100 advogados distribuídos em 29 unidades no Brasil.

A estratégia de comunicação adotada por Wilians transformou sua rotina de luxo em uma marca pessoal e provocou debates dentro da advocacia sobre os limites da publicidade profissional e da exposição da vida privada de advogados.

Críticas à OAB
Nos últimos anos, Nelson Wilians também passou a criticar publicamente as regras da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) relacionadas ao uso das redes sociais.

Em artigo publicado na "Folha de S.Paulo", o advogado defendeu que o sucesso financeiro de profissionais da advocacia não deve ser interpretado como indício de infração ética, e afirmou que a OAB extrapola suas atribuições ao tentar disciplinar conteúdos publicados em perfis pessoais.

Segundo Wilians, as normas voltadas a coibir a chamada ostentação podem representar uma forma de censura. “Na minha opinião, qualquer tentativa de impor restrições ao uso das redes sociais privadas pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) não é apenas ultrapassada, é um flerte perigoso com a censura”, escreveu.

Relações institucionais e atuação pública
Ao longo da carreira, Nelson Wilians manteve relações profissionais com agentes públicos e clientes de diferentes setores econômicos, como bancos, empresas de telecomunicações, varejo, energia, agronegócio e infraestrutura.

Em 2018, assinou um manifesto de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro à Presidência da República. Posteriormente, afirmou em entrevistas que seu escritório mantém relações institucionais com governos de diferentes orientações políticas e que sua atuação não está vinculada a partidos.

Nos últimos anos, também integrou a equipe jurídica da campanha de Pablo Marçal e atuou como advogado do ex-governador João Doria em processos judiciais.