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'Pedimos tratamento diferenciado ao Brasil e Mercosul', diz Itamaraty sobre dolarização da Argentina

Segundo chanceler brasileiro, 2023 foi um ano de "muitíssimo trabalho e desafios" para política externa, mas "o resultado não poderia ter sido melhor". Vieira também se mostrou positivo sobre a relação com país vizinho e comentou os laços Pequim-Brasília, assim como a chegada do Brasil à presidência do G20

Por JORNAL DO BRASIL
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Publicado em 22/12/2023 às 10:48

Alterado em 22/12/2023 às 21:43

Chanceler Mauro Vieira Foto: AFP / Adalberto Roque

Desde que a administração de Javier Milei tomou posse em 10 de dezembro – e até mesmo antes dela – muitas dúvidas sobre como Brasília e Buenos Aires vão se relacionar surgiram. Além disso, durante sua campanha, Milei ofendeu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva o chamando de "corrupto".

No entanto, mesmo com o clima azedo entre os mandatários, Mauro Vieira disse que conversou com Milei e ouviu que o governo do país vizinho quer manter um bom relacionamento com o Brasil. Em entrevista ao jornal O Globo, Vieira afirmou que o presidente argentino "declarou querer manter o melhor relacionamento possível com o Brasil".

"Estive duas vezes com ele [Milei]. No dia da posse, ele declarou que quer manter o melhor relacionamento possível com o Brasil, coisa que, ressaltei, é desejo do presidente Lula. Podemos fazer avanços no comércio bilateral importantíssimos", declarou.

Indagado se Brasília teme as profundas mudanças econômicas que a Casa Rosada está adotando, especialmente no processo de dolarização tão verbalizado por Milei, o chanceler disse que o "impacto será inevitável", mas que pediu ao presidente "um tratamento diferenciado".

"Evidentemente, a Argentina está implementando um programa de ajuste econômico, que vai ter impacto no comércio […], no caso de medidas de comércio exterior, o que pedimos é que haja um tratamento diferenciado para o Brasil e o Mercosul. Estamos sempre dispostos a conversar e discutir qualquer dificuldade. Não há relação bilateral que não tenha pontos a serem discutidos. Com países com os quais temos grande corrente de comércio, como EUA, China, União Europeia e México, há sempre questões a tratar", explicou Vieira ao jornal.

Ao citar o Mercosul, o chefe do Itamaraty disse que o acordo de livre comércio com a União Europeia "tem um limite temporal até fevereiro" e que o governo argentino mostrou apoio ao pacto comercial.

"Estamos trabalhando intensamente. O novo governo argentino, inclusive, manifestou apoio à construção do acordo. Nosso limite temporal é fevereiro e temos feito muitos avanços na questão do meio ambiente e em compras governamentais. Ainda estão pendentes algumas coisas, como certificação dos produtos na exploração para exportação. Há um desejo da presidenta da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, de concluir nesse período também. Ela tem dito que é até fevereiro", afirmou.

O chanceler também comentou as relações sino-brasileiras e disse que a China que Pequim e Brasília vão comemorar 50 anos de relações bilaterais em 2024 e que Xi Jinping deve fazer uma visita ao Brasil no ano que vem.

"O saldo comercial brasileiro com a China é maior do que o saldo comercial com Estados Unidos e União Europeia somados. Vamos completar 50 anos de relações bilaterais, ano que vem, e temos que celebrar. Temos uma relação com desdobramentos em várias áreas, como saúde, ciência e tecnologia. A China é um parceiro do BRICS, fundador do bloco. Esperamos receber a primeira visita, em 2024, do presidente Xi Jinping ao Brasil."

Sobre a presidência do Brasil no G20, Vieira disse que há a previsão de mais de 100 reuniões e o foco corresponderá a questões econômicas ligadas a grandes organismos financeiros internacionais.

"É a primeira vez que o Brasil exerce a presidência. [...] Uma das coisas que estamos propondo na trilha de finanças é uma discussão, com grandes economistas, sobre os organismos financeiros internacionais que deveriam ser usados de modo mais democrático e abrangente, sem imporem tantas condicionalidades."

O Brasil quer trabalhar no G20 para que o grupo mostre a esses organismos que é preciso "ter um olhar mais desenvolvimentista, que dê aos países condições de sair das dificuldades sem matar o paciente, sem fazer uma receita que asfixie".

"A África tem uma dívida de quase US$ 1 trilhão [R$ 4,87 trilhões] e os países precisam de mecanismos que permitam pagar a dívida. Ninguém propõe um calote", complementou. O Brasil ficará na presidência do G20 até dezembro de 2024. (com Sputnik Brasil)

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