Brasil registra alta de racismo, homofobia, abuso infantil e estupro em 2022; assassinatos diminuem

Alento dos indicadores diz respeito a redução das mortes violentas intencionais

Por GABRIEL MANSUR

Casos de estupro dispararam em 2022

Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2023, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), divulgados nesta quinta-feira (20), mostram estatíscas preocupantes em relação a negros, homossexuais e menores de idade no Brasil. O número de registros dos crimes de injúria racial, racismo e homofobia ou transfobia, além dos crimes sexuais contra crianças e adolescentes, dispararam em 2022 no país em comparação com o ano anterior. O alento dos indicadores da violência diz respeito a redução das mortes violentas intencionais.

Racismo e Homofobia disparam

Os registros de racismo saltaram de 1.464 casos, em 2021, para 2.458, em 2022, o que representa um aumento de 67%. Ao mesmo tempo, os episódios de injúria racial também disparam. Em 2021, foram 10.814 casos, contra 10.990 em 2002, número 32,3% superior à do ano anterior.

Embora impliquem a possibilidade de incidência da responsabilidade penal, os conceitos jurídicos de injúria racial e racismo são diferentes. O primeiro está contido no Código Penal (CP), enquanto o segundo está previsto na Lei n. 7.716/1989. A injúria racial consiste em ofender a honra de alguém se valendo de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o crime de racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. Ao contrário da injúria racial, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível.

Os crimes de homofobia ou transfobia tiveram 488 casos registrados em 2022 no país, ante 326, em 2021. A taxa nacional por 100 mil habitantes em 2022 ficou em 0,44 – 53,6% superior ao ano anterior. Os estados com as maiores taxas foram: Distrito Federal (2,4), Rio Grande do Sul (1,1), e Goiás (0,9).

O FBSP informou que, para a quantificação desses crimes, foi necessário contar com dados produzidos pela sociedade civil, como os da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) e do Grupo Gay da Bahia (GGB). A ANTRA contabilizou, em 2022, 131 vítimas trans e travestis de homicídio. Já o GGB registrou 256 vítimas LGBTQIA+ do mesmo crime em 2022.

Abuso infantil

Outro dado alarmante faz referência aos crimes sexuais contra crianças e adolescentes. Os números apresentaram altas expressivas, superiores a 15%. De acordo com os dados, os estupros contra esse grupo subiram 15,3%: saltaram de 45.076 em 2021 para 51.971 em 2022. Já a exploração sexual cresceu 16,4%.

Por faixa etária, foram quase 41 mil vítimas de zero a 13 anos, das quais quase sete mil tinham entre zero e quatro anos; mais de 11 mil vítimas entre 5 e 9 anos; mais de 22 mil entre 10 e 13 anos; e mais de 11 mil entre 14 e 17 anos. As vítimas negras (pretas e pardas) foram a maior parte em praticamente todas as idades, principalmente na faixa etária dos 11 aos 14 anos.

A exploração sexual também aumentou, passando de 764 casos registrados em 2021 para 889 em 2022, uma elevação de 16,4%. E os casos de pornografia infanto-juvenil cresceram de 1.523 casos em 2021 para 1.630 em 2022, um crescimento de 7%.

Demais crimes não letais contra crianças e adolescentes também tiveram expansão: abandono de incapaz cresceu de 8.197 casos em 2021 para 9.348 em 2022, um salto de 14%; ocorrências de maus tratos subiram de 19.799 casos para 22.527, alta de 13,8%; e lesão corporal em violência doméstica teve elevação de 14.856 casos para 15.370, aumento de 3,5%.

Estupram aumentam

Os casos de estupro e estupro de vulnerável notificados no ano passado às autoridades policiais chegaram a 74.930, o que representa 36,9 em cada grupo de 100 mil habitantes. O número é 8,2% maior do que o registrado em 2021. Os casos de estupro somaram 18.110 vítimas em 2022, crescimento de 7% em relação ao ano anterior, e os de estupro de vulnerável, 56.820 vítimas, 8,6% a mais do que no ano anterior.

Segundo os dados, 24,2% das vítimas eram homens e mulheres com mais de 14 anos, e 75,8% eram capazes de consentir, fosse pela idade (menores de 14 anos), ou por qualquer outro motivo (deficiência, enfermidade etc.). Apenas 8,5% dos estupros no Brasil são reportados às polícias e 4,2% pelos sistemas de informação da saúde. Assim, conforme a estimativa, o patamar de casos de estupro no Brasil é de 822 mil casos anuais.

A pesquisa revela que as crianças e adolescentes continuam sendo as maiores vítimas da violência sexual: 10,4% das vítimas de estupro eram bebês e crianças com idade até 4 anos; 17,7% das vítimas tinham entre 5 e 9 anos e 33,2% entre 10 e 13 anos. Ou seja, 61,4% tinham no máximo 13 anos. Aproximadamente 8 em cada 10 vítimas de violência sexual eram menores de idade. Pela legislação brasileira, uma pessoa só passa a ser capaz de consentir a partir dos 14 anos.

Redução de morte violenta

Por outro lado, o número de mortes violentas intencionais de crianças e adolescentes (MVI) caiu de 2.556, em 2021, para 2.489 em 2022, uma redução de 2,6%. No geral, incluindo tabém adultos, a quantidade caiu de 48.431 em 2021, para 47.508 em 2022 – a menor desde 2011, primeiro ano da série histórica do fórum.

São consideradas mortes violentas não intencionais aquelas decorrentes de homicídios dolosos, latrocínio, lesão corporal seguida de morte, intervenção policial e morte de policiais.