O terreno onde a saúde é construída
Como o ambiente ao nosso redor se transforma no ambiente dentro de nós
Eu era um médico recém-formado, residente de Clínica Médica, e já trabalhava em uma Unidade de Terapia Intensiva. Os dias começavam cedo e quase nunca tinham hora para terminar. As refeições aconteciam quando era possível, o sono cabia nos intervalos do trabalho e o cuidado com a própria saúde ficava para depois.
Conhecia a importância da alimentação, do exercício, do sono e do controle do estresse. Mas existe uma diferença profunda entre conhecer os caminhos da saúde e construir uma vida capaz de percorrê-los.
Durante a madrugada de um plantão, comecei a sentir uma dor abdominal cada vez mais intensa. Pela manhã, no próprio hospital onde trabalhava, fui diagnosticado com apendicite aguda e operado de urgência. Poucas horas antes, eu cuidava de outras pessoas. De repente, estava em um leito, usando a pulseira de identificação do paciente.
Não seria correto afirmar que minha rotina causou a apendicite. Mas aquele acontecimento interrompeu uma trajetória que eu já não conseguia interromper sozinho. Quando fui obrigado a parar, consegui observar o terreno sobre o qual estava construindo minha vida.
No primeiro artigo desta série, propus que cada pessoa se tornasse arquiteta da própria saúde. Mas nenhum arquiteto inicia uma construção sem antes conhecer o terreno. Com a saúde acontece algo semelhante.
Existe um terreno externo, formado pelos lugares onde vivemos, pelas condições de trabalho, pelos alimentos disponíveis, pelo ar, pelas telas, pelas relações e pelas circunstâncias sociais. E existe um terreno interno: o ambiente biológico no qual células, tecidos e órgãos vivem, comunicam-se, adaptam-se e se reparam. Esses dois terrenos não estão separados. O lado de fora conversa continuamente com o lado de dentro.
A ciência utiliza o conceito de exposoma para estudar as exposições recebidas ao longo da vida e as respostas biológicas produzidas por elas. Alimentação, poluentes, sono, movimento e estresse participam da maneira como o organismo funciona.
O ambiente não permanece apenas ao nosso redor. De várias formas, ele entra em nós. Uma noite mal dormida pode acompanhar atenção, humor e apetite. O sedentarismo alcança músculos, circulação e metabolismo. A alimentação transforma-se em energia, matéria-prima e sinais metabólicos. O estresse mobiliza respostas hormonais e imunológicas.
No nível microscópico, nenhuma célula vive sozinha. Cada uma existe em uma vizinhança biológica, recebendo oxigênio, nutrientes, hormônios e sinais do sistema imunológico. Depende de circulação, comunicação e capacidade de processar os produtos naturais do metabolismo. Podemos chamar esse conjunto de condições de terreno biológico.
Ele não é uma substância misteriosa nem algo medido por um único exame. É uma imagem para representar o ambiente em que a vida celular acontece: nutrientes, equilíbrio energético, circulação, atividade imunológica e capacidade de reparo.
Isso não significa que todo adoecimento seja consequência do estilo de vida. Existem doenças genéticas, infecciosas, autoimunes e traumáticas que não podem ser explicadas por escolhas pessoais. Também não controlamos nossa genética, nossa história ou todas as circunstâncias sociais. Mas reconhecer esses limites não significa abrir mão da capacidade de agir.
Depois daquela cirurgia, não mudei tudo de uma vez. Comecei, porém, a reorganizar alimentação, exercício, sono, estresse e a distribuição do tempo. Essas escolhas deixaram de parecer obrigações e passaram a fazer parte da pessoa que eu desejava ser e da medicina que queria praticar.
Talvez este seja um bom momento para observar o seu próprio terreno. A sua rotina facilita a construção da saúde ou exige que você lute contra ela todos os dias?
Não é necessário mudar tudo imediatamente. Escolha uma parte do seu ambiente e redesenhe-a para que a decisão saudável se torne um pouco mais fácil.
Todo arquiteto precisa conhecer o terreno onde pretende construir.
A minha virada começou em uma sala cirúrgica.
A sua não precisa começar ali.
Dr. Gustavo Varella é especialista em clínica médica e terapia intensiva, com pós-graduação em medicina do estilo de vida e medicina esportiva. Atua há mais de 10 anos com uma abordagem preventiva em saúde aplicada à performance e longevidade funcional.