Caso Eriksen: como é a vida de quem implanta um cardiodesfibrilador no corpo?

Cardiologista e eletrofisiologista José Alencar explica rotina de pessoas recuperadas de morte súbita e futuro do atleta que já teve alta após o susto

Reprodução
Credit...Reprodução

Há uma semana, pessoas do mundo inteiro ficaram preocupadas com a vida do jogador da seleção da Dinamarca, Christian Eriksen, que teve um mal súbito no jogo da Eurocopa contra a Finlândia e desabou dentro de campo. O meio-campista já teve alta e voltou para casa, após passar por cirurgia para implante de cardiodesfibrilador interno. Ainda não há uma definição sobre sua volta aos gramados.

O que aconteceu com Eriksen não é incomum, estima-se que 4 milhões de pessoas morram no mundo por morte súbita. Raro mesmo é ter sobrevivido, já que a taxa de sobrevivência de um episódio de morte súbita é de 7,6% em países desenvolvidos.

Mas como fica a vida de quem passa por isso? É diferente para uma pessoa comum e um atleta? Para o cardiologista, eletrofisiologista e professor José Alencar é preciso ter cautela. “Não dá para dizer que ele voltará a jogar, o aparelho implantado vai observar a frequência cardíaca de Eriksen, e o algoritmo pode ser iniciado com o aumento dos batimentos, o que é muito provável de acontecer em um jogo de futebol”, explica o autor dos "Manuais de ECG e de Medicina Baseada em Evidências" e professor da Sanar.

Os choques emitidos pelo cardiodesfibrilador implantado no corpo dos pacientes são intensos e desconfortáveis. “Quando a frequência cardíaca aumenta e desperta o aparelho são dados choques, com dores fortes e traumáticas para muitos pacientes, não é uma situação confortável”, pontua Alencar. Quando os choques acontecem é necessário procurar imediatamente uma unidade de saúde para fazer exames e acompanhar a situação.

Mas, e nos casos de pacientes que não são atletas? Para esses, o especialista explica que a retomada da rotina é mais fácil, já que não implica necessariamente em situações de alta frequência cardíaca. “Para uma pessoa comum a volta à rotina após um procedimento como esse é mais tranquila, é possível cumprir as tarefas diárias e até fazer exercícios físicos de baixa e média intensidade, como uma caminhada ou corrida”, diz Alencar. Algumas práticas precisam ser adaptadas, como passar pelas portas das agências bancárias, plataformas de segurança nos aeroportos ou até mesmo fazer um exame de ressonância magnética, já que o aparelho pode ser danificado e prejudicar o paciente. “No mais, é fazer um acompanhamento médico com frequência e seguir orientações para conviver com o aparelho”, alerta Alencar.

Importância do DEA, o Desfibrilador Externo Automático

Não seria exagero dizer que Eriksen teve um mal súbito em um dos lugares com mais chance de sobrevivência: o campo de uma partida de futebol. Sim, o rápido atendimento especializado e a existência de um Desfibrilador Externo Automático (DEA) no local foram essenciais para salvar o jogador. “É muito difícil sobreviver a um mal súbito sem a reanimação feita pelo DEA, nestes casos a velocidade é o principal aliado da vida. Para se ter uma ideia, 60% das mortes súbitas acontecem em casa, quando as pessoas não têm os equipamentos e atendimento necessário em pouco tempo, precisando se deslocar até uma unidade de saúde”, explica o cardiologista.

São muitas as legislações no Brasil que falam sobre a necessidade da presença do equipamento em locais públicos, seja no âmbito federal, estadual ou municipal. O espírito de todos textos é permitir o acesso de um desfibrilador DEA em locais com aglomeração ou circulação de pessoas como estações rodoviárias, metroviárias, ferroviárias, aeroportos, centros comerciais, shopping centers, estádios e ginásios esportivos e eventos com expectativa relevante de público, como shows, partidas de futebol e outros. “É preciso chamar a atenção das autoridades e da população à importância da presença do aparelho e do treinamento das pessoas para salvar vidas também em outros ambientes, como empresas, condomínios e escolas”, finaliza o especialista.

José Alencar é Cardiologista e Eletrofisiologista. É ainda autor do Manual de ECG e do Manual de Medicina Baseada em Evidências, ambos pela Editora Sanar. É professor e coordenador de cursos também pela Sanar.