O paradoxo da paixão

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Por BERENICE KUENERZ

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A paixão é uma das forças mais ambivalentes da experiência humana, possuindo um lado luminoso e outro sombrio.

Se você já experimentou, sabe do que estou falando.
Pois hoje é disso que vamos falar, porque ela pode nos levar às alturas ou nos jogar do penhasco.

Por que algumas pessoas conseguem cruzar linhas de chegada impossíveis, tirar projetos grandiosos do papel ou dedicar uma vida inteira a uma causa? A resposta, quase sempre, está na paixão. Essa força visceral é um verdadeiro motor da experiência humana – e não há momento melhor para observar isso do que agora, com os gramados da Copa do Mundo de 2026 servindo de laboratório em tempo real para a psique humana.

Nas disputas acirradas do "mata-mata", que acontecem neste momento nos Estados Unidos, México e Canadá, vemos claramente como a paixão funciona como um combustível em alta voltagem. Quando um atleta (veja o caso de Vozinha e da equipe de Cabo Verde) está genuinamente apaixonado pelo objetivo da taça, o foco se estreita e a resiliência se multiplica. É essa paixão que dá forças para correr na prorrogação, suportar a dor física e manter a determinação sob a pressão de milhões de espectadores. A paixão opera a alavanca que nos tira da inércia e desafia a lógica. Sem ela, grandes conquistas não existiriam.

Contudo, a física das emoções cobra seu preço. À medida que a paixão eleva a nossa temperatura emocional, a mente começa a perder a clareza. É um processo quase físico: o fogo sobe e a mente fica envolta em fumaça.

No futebol, o time que joga com todo o coração, mas sem a cabeça no lugar, desorganiza-se taticamente. Sob o nevoeiro do excesso de envolvimento, o discernimento desaparece e a capacidade de ler a realidade de forma objetiva é seriamente comprometida.

É nesse cenário emocional nebuloso que surge uma das armadilhas mais perigosas: a euforia. Embora seja vista como um estado de felicidade, a euforia atua de forma negativa no momento das decisões. Ela funciona como uma embriaguez emocional. Ao nos inundar com uma falsa sensação de invencibilidade — no caso do futebol, seja após abrir o placar ou ao receber o favoritismo da torcida —, a euforia faz perder os limites. Sob o seu efeito, ignoram-se os riscos, cometem-se faltas desnecessárias, negligencia-se a defesa e atropela-se o bom senso, esquecendo que a força do desejo não substitui a estratégia.

Como, então, desenvolver a habilidade de regular essa temperatura e não se deixar cegar? A resposta está no treino do “distanciamento intencional”. Assim como um técnico que precisa olhar o jogo de fora do campo para entender a tática, nós precisamos aprender a observar nossas próprias emoções à distância.

Na neurociência, esse distanciamento corresponde a ativar a área mais nobre e evoluída de nosso cérebro: o córtex pré-frontal. Enquanto as nossas emoções mais viscerais e o entusiasmo inflamado tentam assumir o controle do jogo, é essa estrutura “elitizada” e racional que precisa manter a liderança. O segredo não é desativar o entusiasmo, mas garantir que o comando central continue com o poder de regular a intensidade da emoção, para manter a visão estratégica clara.

Na prática, isso se desenvolve por meio da “pausa estratégica”: antes de tomar uma decisão importante sob o efeito da euforia ou do entusiasmo excessivo, force-se a esperar 24 horas ou consulte uma mente neutra (um mentor, um amigo). Outro exemplo valioso é a auto verificação: sempre que sentir o peito inflado de certeza absoluta, faça a si mesmo a pergunta que o choque de realidade traria: “Onde estão os pontos fracos do meu plano que a minha empolgação não me deixa ver?”. Regular a paixão não é repressão, é calibração.

O grande desafio humano, portanto, não é extinguir a paixão para nos tornarmos robôs calculistas. O segredo reside em encontrar o ponto ideal de ebulição.

Para vencer na vida, em qualquer área, ou levantar a taça no MetLife Stadium no dia 19 de julho, a receita é a mesma: precisamos do calor da paixão para ter coragem, iniciar projetos e manter a determinação nos dias difíceis. Mas precisamos, acima de tudo, da brisa fresca da razão para dissipar a fumaça, enxergar os limites e garantir que o fogo que nos move seja o que constrói, e não o que nos consome.

Olhando para a sua própria trajetória, você consegue se lembrar de um momento em que uma forte paixão, sem limites ou filtros, acabou te afastando do objetivo final em vez de te aproximar dele?
Todos nós já fomos, em algum momento, engolidos pela fumaça de alguma emoção exagerada. O convite para os próximos dias — e para os próximos jogos da vida — é aprender a vibrar com a intensidade do torcedor, mas decidir com a lucidez do técnico.

Berenice Kuenerz, psicoterapeuta, mentora em gestão emocional e alta performance.