Nunca chegue ao topo. Tenha sempre espaço para crescer
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Anos atrás li em um texto taoísta que dizia que a maneira como começamos qualquer coisa, ou um novo ciclo, define em muito o que vem a seguir.
Mas o texto dizia, também, algo que na ocasião foi surpreendente para mim: que nunca devemos chegar ao topo!
Hoje entendo isso da seguinte forma: sempre devemos ter ainda um espaço para crescer.
A imperfeição, nesse aspecto que alguns dizem ser uma habilidade humana, é benéfica, porque significa que ainda há espaço para crescimento. Não deixar nada totalmente fechado, mas com alguma abertura para a possibilidade de expansão ou renovação.
Estive recentemente no Japão e na China, onde encontrei, em algumas obras antigas, esse simbolismo representado por alguma pequena imperfeição deixada propositalmente. Esse ensinamento milenar está nos dizendo que cada novo ciclo representa mais um tempo disponível para crescer ou florescer.
A perspectiva que quero trazer aqui é a de começarmos cada novo ciclo em nossas vidas com a perspectiva de crescimento ou florescimento. Com um mindset de florescimento. Florescer é se permitir crescer além do que fomos até aqui.
Se permitir porque, frequentemente, o que mais nos impede não são as circunstâncias e, sim, nossas travas internas, que se manifestam em diferentes emoções, sendo a mais comum delas o medo.
Temos medo de crescer, de expandir, de sair de zonas conhecidas, ainda que desconfortáveis ou, até, dolorosas.
O medo é uma emoção que se intromete a cada vez que pensamos em pôr o pé para fora de alguma zona de conforto, porque tem a ver com a manutenção do passado, com a repetição do conhecido. Não tem a ver com inícios de ciclos ou expansão do que, em algum momento, ficou incompleto ou imperfeito.
Qualquer início tem a ver com abertura para o futuro e, por isso, com duas emoções: entusiasmo e esperança ativa. Naturalmente pode ter a ver com muitas outras emoções, mas gostaria de aqui focar na dança dessas três emoções: medo, entusiasmo e esperança ativa.
A palavra entusiasmo vem do grego “enthousiasmos”, que, por sua vez, vem de Theos, que significa literalmente “com um Deus dentro”, ou “inspirado por um Deus”. Como se a pessoa estivesse tomada por uma força divina.
É uma energia que nos move de dentro para fora para expandir. Veja que se contrapõe ao medo, que é uma emoção que nos contrai.
O que eu quero dizer a você é que não importa que tenhamos medo, e é certo que vamos ter, mas precisamos ter entusiasmo também.
Você não sente entusiasmo? Acha difícil experimentar? Ok. Visualize-se experimentando. Em algum momento da sua vida você já experimentou essa energia. Traga de volta essa memória e respire nela, inspire-se nela. O incrível, talvez você não saiba, é que o nosso cérebro não distingue o imaginado do real.
Medo e entusiasmo muitas vezes estão se confrontando dentro de nós. Certamente você já experimentou essa confrontação desconfortável: “Vou ou não vou, faço ou não faço, quero ou não quero?”.
A esperança ativa é outra emoção muito interessante. Por que ativa? Porque existe a esperança passiva, aquela em que esperamos que “algo” irá nos trazer o que queremos.
Lembro-me de uma frase que minha mãe me dizia toda vez que me percebia “remanchando” com alguma coisa. Ela dizia que Jesus havia dito: “Ajuda-te que eu te ajudarei.” Ou seja, aja primeiro, que eu farei algo para te ajudar.
Eu não sei se realmente Jesus disse algo assim, mas a frase explica exatamente a esperança ativa, onde existe ação. Ou seja: eu espero conseguir e até confio em alguma ajuda espiritual ou de alguém, mas, simultaneamente, vou me movendo, do jeito que posso, na direção do que quero. Vou criando as condições indispensáveis e necessárias para a coisa acontecer.
Florescer é um movimento presente e contínuo para o novo, onde pode existir o medo, mas também entusiasmo e ação.
O novo precisa de espaço. O que eu quero dizer com isso? Trocar certezas rígidas por curiosidade.
Temos “certezas” sobre nós baseadas, muitas vezes, em crenças limitantes que enchem nossa mente de dúvidas, funcionando como travas ao nosso florescimento. Nos impedem de colocar o pé na direção do desconhecido. Sim, porque o novo é o desconhecido.
Certa vez, um erudito foi visitar um mestre Zen para aprender sobre o Zen. O mestre o recebeu com gentileza e começou, como de costume, a preparar a cerimônia do chá dentro de um ritual “quase” perfeito. Estando o chá pronto, começou a encher a xícara do erudito. Foi enchendo e continuou enchendo…
O chá transbordou, escorrendo pela mesa, na roupa do erudito e pelo chão. Assustado, o visitante disse: “Mestre, a xícara já está cheia. Não cabe mais nada!” O mestre então respondeu com calma: “Você é como esta xícara. Está cheio de ideias, opiniões, certezas e conceitos. Como posso lhe ensinar algo novo se você não esvaziar primeiro a sua xícara?”.
A xícara é a mente. O chá, as certezas e conceitos. É um desafio, para cada um de nós, identificar os pensamentos que nos limitam, nos impedem e nos mantêm presos a ideias e percepções que já perderam a validade.
Difícil soltar, realmente. Muitas vezes parece impossível! Eu sei bem disso. Crie uma imagem em sua mente e visualize-se soltando. Não realizamos o poder da visualização, embora, muitas vezes, a pratiquemos no sentido negativo. Já se deu conta de como visualizamos “negativamente”? Por que não “positivamente”?
O novo não pede perfeição, pede disponibilidade. Ouse olhar e perceber de uma nova forma.
Podemos começar a semear novas ideias em nossa mente como a “intenção de florescer”. A intenção atua como uma força reorganizadora que abre a mente para o novo. Antes de qualquer mudança existe uma intenção. Ela não nasce da ausência do medo, mas da escolha de não ser governada por ele.
Quero terminar essa minha conversa com você, leitor, contando que, entrando na página do Instagram @rony (Rony Meisler), me deparei com um poema de Thiago André, conhecido como Thiaguinho, que, aliás, passei a conhecer nesse feliz momento em que abri minha mente para algo novo.
Transcrevo aqui quase na íntegra:
“Não se apavore e não desanime.
Levanta e anda. Vá em busca da sua sorte.
Hoje eu acordei com o pé direito e resolvi agradecer por cada feito.
Eu tive medo, mas fui com medo mesmo.
Eu vou seguindo sempre de cabeça em pé.
Eu sei que vou chegar.
Eu tô no corre, você sabe como é.
Eu perco tudo, mas não perco a fé.
Se não aconteceu, ainda está por vir”.
Berenice Kuenerz é Psicóloga, Mentora em Gestão Emocional e Autoliderança.