Redes nem sempre sociáveis
De alguns anos para cá, nota-se que as reclamações dos usuários das redes sociais crescem a cada dia: críticas aos algoritmos seletivos ou a excessos diversos, às fake news, ou, ainda, à polarização intensa dos debates, nem sempre pacíficos, sobre futebol, ideologia e política
"Cansei de bater palmas para maluco dançar", afirmou um amigo que, durante anos, foi frequentador assíduo da rede social Facebook. Pedindo para que o seu nome não seja citado, ele concluiu: "Não quero mais ficar como o violinista do Titanic enquanto aquilo lá está afundando".
Já um ex-jogador de futebol, que também preferiu não se identificar, disparou todo o seu descontentamento com o X, ex-Twitter, rede social que excluiu milhares de seguidores do seu perfil oficial sem nenhuma explicação, fato corriqueiro entre as várias críticas feitas por muitos usuários desde que a plataforma foi adquirida pelo empresário americano Elon Musk.
De alguns anos para cá, nota-se que as reclamações dos usuários das redes sociais crescem a cada dia: críticas aos algoritmos seletivos ou a excessos diversos, às fake news, ou, ainda, à polarização intensa dos debates, nem sempre pacíficos, sobre futebol, ideologia e política.
O jornalista americano Kyle Chaika, colunista da revista The New Yorker, lançou recentemente o livro "Mundo filtrado: como os algoritmos nivelaram a cultura" e, no ano passado, escreveu um artigo sugerindo que a sociedade pode estar se encaminhando para o que ele chama de "postagens zero" — um ponto em que as pessoas comuns percebem que não vale a pena compartilhar suas vidas na internet.
Pesquisas recentes indicam que Kyle tem razão. Elas mostram que, após 20 anos, a quantidade de compartilhamentos diminuiu consideravelmente, mostrando que cerca de um terço dos usuários de redes sociais postaram menos em 2025 do que no ano anterior, tendência presente principalmente entre os adultos da Geração Z, os que nasceram entre 1995 e 2010.
O que tem se notado também, ano após ano, depois de as redes sociais terem se tornado o principal meio de comunicação, informação (e desinformação), divulgação, entretenimento, e espaço para relacionamentos diversos, é que o número de usuários que se sentem fatigados física, mental e emocionalmente cresceu significativamente. Eles se sentem aprisionados, dependentes, por estarem conectados o tempo todo.
A psicoterapeuta Berenice Kuenerz, articulista colaboradora do JORNAL DO BRASIL, expõe, na sua visão, alguns dos pontos negativos que ficam claros ao não se saber utilizar as redes sociais corretamente, com moderação:
"As redes sociais expandiram enormemente a comunicação, mas, simultaneamente, abriram uma caixa de Pandora, trazendo angústia, ansiedade, insegurança, compulsão etc. para as pessoas. Se configurou como um lugar em que a vida aparece de forma mágica somente com o belo, o bom, o fácil, o agradável. Em decorrência disso, elas vendem a ideia de que felicidade significa não ter problema, estar sempre satisfeito, sem emoções desconfortáveis que alcançam esse estado nirvânico de plenitude em tudo em suas vidas. Para muitas pessoas tornou-se um lugar de fuga da realidade. Um lugar onde se deixa de viver suas vidas para entrar em um mundo mágico e ideal. Às consequências disso podem ser graves a nível mental e emocional". E completa: "A distorção do que seja a vida e a felicidade, em meu ponto de vista, é o mais grave. Não ajuda as pessoas a conquistar a felicidade que significa navegar pela vida aprendendo a lidar e a crescer com os desafios, construindo autoconfiança, autoestima, autovalorização. Não as ajudam a olhar para o que existe de positivo em suas vidas porque as foca na falta, na ausência, na diferença".
A atriz Paloma Bernardi é mais uma entre os milhões de internautas presos na teia da conexão excessiva com as redes sociais, principalmente no Instagram:
"Queria ser menos ativa porque ela 'pode sugar a nossa alma' se não impusermos limites. Às vezes, entro para ver algo pontualmente e acabo ficando presa ali durante horas. Acho que as pessoas precisam se policiar mesmo."
Paloma, que está encenando a peça “O cravo e a rosa”, no teatro I Love PRIO, no Jockey Club do Rio de Janeiro, porém, afirma o lado bom da rede social:
"Como atriz, consigo me conectar com o público que acompanha os meus trabalhos em várias partes do mundo. Gosto de postar os bastidores e o que me sinto a vontade de expor da minha vida pessoal, mas tem a parte negativa porque a internet é "terra de ninguém". Alguns se sentem à vontade para julgar e criticar de forma negativa, e isso de fato me machuca às vezes."
Os problemas com críticas são, porém, menores comparados àqueles que envolvem agressões e ofensas disparadas pelos internautas, motivos principais que obrigaram o jornalista Flávio Dias a ter restrições a algumas fortes características das redes sociais. Flávio, que comanda o “Atenção, Vascaínos”, o mais expressivo canal de torcedores do clube carioca de futebol Vasco da Gama, com quase 300 mil inscritos no Youtube e outros milhares de seguidores distribuídos pelo Facebook, X e Instagram, não poupa críticas aos perfis de torcedores que usam as redes para agressões verbais e ameaças:
"Procuro levar de uma maneira profissional, mas não consigo ser hipócrita de dizer que tenho uma relação de cabeça fria com pessoas mal-educadas. Sou muito adepto de bloquear e tirar da convivência gente que, gratuitamente, agride ou evita princípios básicos de relação. Essa é uma maneira que encontrei e que procuro estabelecer para que eu consiga sobreviver a esta selva. Meu Instagram é fechado, apenas para pessoas próximas e familiares. Não vejo necessidade de abrir minha vida privada, por mais que digam que como sou uma pessoa pública, que deveria fazer isso mais. Não tenho Twitter (X) porque não suporto a maneira estúpida como 90% das pessoas interagem por lá. Prefiro ter só o perfil do canal, onde posto as coisas apenas relacionadas ao Vasco."
Os problemas que os usuários das redes sociais sofrem com agressões e ameaças, segundo o advogado Stimerson Raymundo de Oliveira, podem e devem ser discutidos e enfrentados através das leis, na justiça:
"A legislação brasileira, por meio do marco civil da internet e de atualizações recentes no Código Penal, garante que invasões de dispositivos, perseguições virtuais (stalking — que é o crime de perseguição obsessiva, física ou digital que invade a privacidade e causa medo à vítima) e fraudes financeiras sejam punidas com rigor, permitindo inclusive o rastreamento do criminoso por meio de ordem judicial."
Stmerson, especializado, em direito civil e direito do consumidor, atuando em todo o sul do estado do Espírito Santo, lembra também os graves problemas que os internautas enfrentam com as questões de fraudes e golpes, e aconselha quem sofre com esses crimes:
"A principal ação que as vítimas de golpes ou crimes na internet devem tomar é a de preservar e guardar provas. Antes de apagar mensagens ou perfis, é preciso registrar capturas de tela (prints), salvar links e, se possível, fazer uma ata notarial em cartório para dar validade jurídica ao conteúdo. Com essas provas, a vítima deve registrar um boletim de ocorrência, que hoje pode ser feito online em delegacias virtuais ou presencialmente em unidades especializadas em crimes cibernéticos. Além da esfera criminal, a vítima tem o direito de buscar reparação na justiça civil para recuperar valores perdidos ou receber indenização por danos morais, especialmente em casos de exposição da intimidade ou ataques à honra."
Em situações de golpes financeiros, o advogado afirma que o Código de Defesa do Consumidor e normas do Banco Central também protegem o cidadão, obrigando instituições a adotar mecanismos de segurança e, em muitos casos, a devolver o dinheiro se ficar provada a falha na segurança bancária. E Stmerson reforça: "O importante é agir rápido, notificar as plataformas para a remoção de conteúdos ofensivos e informar o banco imediatamente para tentar o bloqueio de transações fraudulentas".
Quando o assunto sobre as redes sociais envolve crianças e adolescentes, o sinal de alerta surge ainda mais forte. Certamente, a maioria dos pais vive atormentada e preocupada com a forma como seus filhos menores estão utilizando o celular e navegando na internet. Renata Silva Serpa Santos da Conceição, especialista em mediação escolar para crianças neurodivergentes, diz como administra a maneira e o tempo de internet e redes sociais da filha Maria Valentina, de 13 anos:
"Acredito que a tecnologia está aí e o melhor caminho não é lutar contra ela. Ela pode ajudar crianças e adolescentes, mas a moderação e o controle são fundamentais. Na minha relação com Maria Valentina, fica claro que a adulta sou eu. Logo, controlo o tempo que ela usa a tela e dispositivos, mas também me responsabilizo por oferecer outras alternativas (passeios, esportes, jogos de tabuleiro, materiais artísticos). Valentina, por exemplo, aprendeu crochê nas redes sociais. E eu a estímulo a criar peças novas, o que faz com que fique menos tempo na tela, on-line. O resultado é usar o celular como alternativa quando não tem as coisas que, de fato, interessam (Jiu-jitsu, livros, brincadeiras com colegas) e não como prioridade. Inclusive, ela não sai de casa com o celular. Só o leva em viagens ou quando é necessário falar comigo."
Renata conclui: "Proibir sem dar opção para quem está com criatividade, vigor e hormônios em alta não é uma saída viável".
A advogada e delegada da Comissão de Direito da Criança, do Adolescente e Adoção da OAB/RJ, na Subseção de Niterói, Gabriela Grafanassi, reforça que a preocupação que muitos pais têm com o uso do celular pelos seus filhos menores e adolescentes é também da Comissão:
"Um dos temas que mais nos preocupa atualmente é o uso de celulares, redes sociais e jogos virtuais por crianças e adolescentes. Embora a tecnologia faça parte da vida contemporânea, ela também expõe esse público a riscos muito sérios."
Chegam à Comissão relatos de crianças envolvidas em jogos online que incitam a violência, a automutilação e até a morte; situações em que adultos se passam por jovens nas redes sociais para marcar encontros presenciais, colocando essas vítimas em risco de abuso sexual, estupro e outras formas de violência; além de casos de chantagem, extorsão e vazamento de imagens íntimas.
Gabriela acrescenta que "é fundamental que pais e cuidadores estejam atentos ao uso da tecnologia. Isso inclui acompanhar os conteúdos acessados, observar a classificação etária de jogos e aplicativos, estabelecer limites, orientar sobre a não exposição de dados pessoais e, principalmente, manter um diálogo constante e acolhedor, para que crianças e adolescentes se sintam seguros para relatar qualquer situação de risco".
E finaliza com uma informação que nem todos conhecem:
"É importante lembrar que a proteção de crianças e adolescentes é uma responsabilidade coletiva. O Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece que família, sociedade e Estado devem atuar de forma conjunta para garantir a segurança, a dignidade e o desenvolvimento saudável desse público."
Já o psicanalista Manoel Thomaz Carneiro diz como as redes sociais, através de suas observações, atingem a juventude:
"Entre os mais jovens, observo um empobrecimento da linguagem emocional. O discurso torna-se telegráfico, funcional, quase utilitário. Há dificuldade em nomear sensações, afetos e estados internos com precisão e nuance. Fala-se rápido, mas sente-se pouco elaborado. A experiência subjetiva não encontra palavras suficientes para existir plenamente, o que compromete não apenas a comunicação com o outro, mas também o reconhecimento de si. Talvez o desafio contemporâneo não seja rejeitar o mundo virtual, mas resgatar, dentro dele e apesar dele, espaços de demora, profundidade e presença. Sem isso, corremos o risco de permanecer permanentemente conectados e, ao mesmo tempo, cada vez mais sós."
Manoel Thomaz, que desde 1989 coordena o curso do Grupo Psicanálise para Todos, no Leblon, Rio de Janeiro, resume, em sua opinião, a força das redes sociais, e como ela se caracteriza:
"Existimos em um tempo marcado por uma multiplicação vertiginosa de canais virtuais, nos quais a velocidade e a sequência ininterrupta de informações parecem ter se tornado valores em si. A experiência do mundo, antes atravessada por pausas, silêncios e intervalos de elaboração, hoje é constantemente fragmentada por estímulos sucessivos que não se sedimentam. Nesse ritmo acelerado, algo essencial se perde: a reflexão e a contemplação."