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Obesidade infantil: quando as doenças de adulto começam na infância

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Por DRA FERNANDA MATTOS

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Durante muito tempo, a principal preocupação com a alimentação infantil foi a desnutrição. Hoje, o cenário é outro. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, da Federação Mundial da Obesidade (WOF), o número de crianças e adolescentes de 5 a 19 anos com obesidade deverá ultrapassar, pela primeira vez na história, o de jovens com baixo peso.

E essa mudança não é apenas estatística. Ela mostra que doenças antes associadas à vida adulta estão começando cada vez mais cedo.

Um em cada cinco jovens
A proporção de crianças e adolescentes com sobrepeso ou obesidade no mundo passou de 14,6% em 2010 para 20,7% em 2025. O crescimento é especialmente rápido nos países de renda média, como o Brasil. Até 2040, o Atlas prevê 228 milhões de jovens com obesidade, contra 142 milhões com baixo peso. Segundo o Relatório de Nutrição Infantil 2025 do UNICEF, essa inversão já deve acontecer entre 2025 e 2027.

O Brasil está entre os dez países que concentram o maior número de casos: são cerca de 17 milhões de jovens de 5 a 19 anos com excesso de peso, sendo 7 milhões já com obesidade. Em 2025, estimava-se que 6,6 milhões de crianças de 5 a 9 anos e 9,9 milhões de adolescentes de 10 a 19 anos viviam com sobrepeso ou obesidade no país.

Doenças de adulto em corpos de criança
Criança com obesidade tem mais chance de se tornar um adulto com obesidade. Mas o problema não fica só no futuro: muitas complicações já aparecem na infância e na adolescência. Estima-se que, até 2040, pelo menos 120 milhões de jovens em idade escolar no mundo terão sinais precoces de doenças crônicas ligadas ao excesso de peso.

No Brasil, as projeções para 2040 chamam atenção. A gordura no fígado, hoje chamada de doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica (MASLD), que pode evoluir para fibrose e cirrose, deve atingir 4,6 milhões de jovens. Os triglicerídeos elevados, que aumentam o risco cardiovascular, 2,1 milhões. A pressão alta, 1,6 milhão. E a glicose elevada e a resistência à insulina, sinais iniciais do diabetes tipo 2, 635 mil.

Por que isso acontece?
A obesidade infantil não tem uma causa única. Ela resulta da combinação de fatores genéticos, metabólicos e, principalmente, do ambiente em que a criança vive, que começa a ser formado ainda na gestação. Os primeiros mil dias de vida, da gravidez aos dois anos, são decisivos para o metabolismo. No Brasil, 32,9% das mulheres em idade fértil têm IMC elevado, um fator de risco importante para os filhos, enquanto o aleitamento materno é uma importante forma de proteção.

Depois, entram em cena os hábitos do dia a dia. Os ultraprocessados, baratos e ricos em açúcar, sal e gordura, moldam o paladar desde cedo, e o consumo diário de refrigerantes e sucos industrializados está diretamente associado ao ganho de peso excessivo. Somam-se a isso o excesso de telas, a falta de atividade física (muitos adolescentes não chegam aos 60 minutos diários recomendados) e a publicidade de alimentos voltada às crianças nas redes sociais e até nas escolas.

Sem dieta restritiva e sem culpa
A boa notícia é que a infância é justamente a fase em que a prevenção tem maior potencial de mudar essa história. Mas o caminho não passa por dietas restritivas, castigos ou culpa.

A criança aprende a comer observando os adultos. Por isso, as mudanças precisam envolver toda a família: priorizar comida de verdade, como frutas, verduras, legumes, feijão e arroz; oferecer água no lugar de bebidas açucaradas; reduzir os ultraprocessados em casa; diminuir o tempo de tela e estimular brincadeiras ativas.
A forma de falar sobre o peso também importa. Comentários que associam o corpo à preguiça ou à falta de disciplina machucam e afastam a criança do cuidado. Situações de estigma e bullying merecem atenção e, quando necessário, acompanhamento psicológico.

A balança não conta toda a história!
O acompanhamento nutricional vai além do peso: considera a história da criança desde a gestação, a alimentação, o sono, a atividade física e a curva de crescimento ao longo do tempo, em conjunto com pediatra, endocrinologista, psicólogo e profissional de educação física, quando necessário.

A pergunta, portanto, não deveria ser apenas “quanto essa criança precisa emagrecer?”, mas também: ela está crescendo bem? Tem acesso a uma alimentação de qualidade? Brinca e se movimenta? Tem uma relação saudável com a comida e com o próprio corpo?

Os dados do Atlas Mundial da Obesidade 2026 deixam claro que a obesidade infantil não é um risco distante: é uma realidade presente, inclusive no Brasil.

Lembre-se sempre! Cuidar da alimentação e do estilo de vida das crianças hoje é a forma mais eficaz de proteger a saúde dos adultos de amanhã.

Dra. Fernanda Mattos, é nutricionista clínica com pós-doutorado em Bioquímica Nutricional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Doutora em Ciências Nutricionais pela UFRJ e Mestrado em Clínica Médica pela mesma instituição. Possui Pós-Graduação em Nutrição Clínica pela UFRJ, além de formação internacional em obesidade pelo Continuing Medical Education Program in Obesity, do Royal College of Physicians and Surgeons do Canadá, e Diploma de Competência em Sobrepeso e Obesidade pelo Colégio Oficial de Médicos de Barcelona. Realiza atendimento em consultório particular, e atua como Docente permanente do Programa de Pós-Graduação de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFRJ. Autora dos livros “Hipertensão: um guia amigável para uma vida saudável” e “Obesidade: da evidência científica à prática clínica”. Seu principal objetivo profissional é promover saúde, qualidade de vida e tratamento individualizado, baseado em evidências científicas e no cuidado humanizado.