Cuide bem do seu cérebro
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O envelhecimento da população vem demandando maior saber científico para a compreensão dos diferentes recursos e adaptações do organismo para atender as necessidades desta nova etapa da vida dos longevos. Estudos revelam que o envelhecimento como um todo é acompanhado também por mudanças progressivas no tecido cerebral. Algumas são consideradas parte do processo fisiológico, como pequenas alterações no volume cerebral, na velocidade de processamento das informações e na conectividade entre diferentes regiões. Entretanto, envelhecer não significa necessariamente perder memória, autonomia ou capacidade intelectual.
A trajetória do envelhecimento cerebral é resultado da interação entre idade, genética, saúde vascular e metabólica, um sono de qualidade, uma boa nutrição principalmente sem alimentos processados que já se sabe, induzem a um estado de inflamação crônica e generalizada do organismo, atividade intelectual, relações sociais e, de maneira particularmente importante, atividade física.
O cérebro é um dos órgãos metabolicamente mais ativos do organismo necessitando de uma demanda energética elevada e contínua de ATP (adenosina trifosfato), energia química essa oriunda principalmente das mitocôndrias. Aí que entra a atividade física como um fundamental recurso para o fornecimento dessa energia. O exercício físico não atua apenas sobre músculos, ossos e sistema cardiovascular. Ele secreta uma série de sinais metabólicos e moleculares, as miocinas, que alcançam o cérebro.
Dentre as miocinas mais estudadas atualmente, a irisina, secretada durante a contração muscular, favorece a biogênese e a função mitocondrial no cérebro como um todo mas principalmente no hipocampo, região cerebral que merece atenção especial, pois é a estrutura cerebral que participa de processos relacionados à memória e à aprendizagem e é particularmente sensível ao envelhecimento Estudos experimentais e clínicos sugerem que a atividade física, tanto a aeróbica quanto a de resistência, pode favorecer mecanismos associados à manutenção da estrutura e da função do hipocampo por ter este uma grande capacidade de biogênese de novos neurônios.
Há om mecanismo importante de adaptação do cérebro ao seu envelhecimento ao longo da vida que é a sua neuroplasticidade. A neuroplasticidade permite que o tecido cerebral modifique conexões entre seus neurônios, fortalecendo determinadas redes e reorganizando circuitos em resposta às experiências de vida e aos seus aprendizados subconsequentes. O exercício físico parece favorecer esse ambiente de plasticidade por diferentes mecanismos, entre eles a modulação de fatores neurotróficos, especialmente o BDNF (Brain-Derived Neurotrophic Factor). O aumento da sua expressão no tecido cerebral é detectado após o exercício físico e é atribuído a ação especialmente da irisina, secretada pelo músculo em contração.
O envelhecimento corporal , como um todo, está associado a um estado de inflamação crônico de baixa intensidade. A atividade física parece exercer influência sobre os processos inflamatórios sistêmicos criando um ambiente menos inflamado no organismo, beneficiando assim, consequentemente, o cérebro. Temos basicamente 2 modalidades de exercício físico: o aeróbico melhorando a capacidade cardiorrespiratória e a oxigenação das células de um modo geral, estando associado a adaptações vasculares e metabólicas importantes e o treinamento resistido, fundamental para a preservação da força e massa muscular, reduzir fragilidade e melhorar a saúde metabólica mas exercícios de equilíbrio e coordenação acrescentam benefícios funcionais importantes, especialmente com o avanço da idade.
Dessa forma, envelhecer não deve ser encarado simplesmente como um processo de perda. O cérebro envelhecido continua capaz de responder a estímulos, adaptar-se e estabelecer novas conexões tão importantes para a manutenção da qualidade de vida de um indivíduo. Portanto a atividade física ocupa uma posição central na estratégia da melhor forma de envelhecer, porque atua simultaneamente sobre músculo, metabolismo, sistema cardiovascular, mitocôndrias, inflamação e cérebro. Mais do que simplesmente “fazer exercício”, a proposta aqui foi compreender que o movimento é uma forma de estímulo biológico capaz de preservar a capacidade funcional do organismo ao longo da vida.
Dra Elizabeth Cataldi é médica endocrinologista formada pela Universidade Federal de Medicina (UFRJ), pós graduada em Endocrinologia pelo Instituto Carlos Chagas e mestrado em Neurologia pela UNIRIO, membro da SBEM e SBCBM com ampla experiência no tratamento da obesidade. Atuando em atendimento em consultório particular no Instituto Metabólica, especializado no tratamento da obesidade, síndrome metabólica e cirurgia bariátrica e metabólica.