Emagrecer não basta: como preservar músculos e nutrientes na era das canetas emagrecedoras

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Por DRA FERNANDA MATTOS

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Medicamentos que atuam em hormônios intestinais, como o GLP-1, reduzem a fome, aumentam a saciedade e podem promover perdas expressivas de peso. Mas hoje a discussão vai além do número mostrado na balança: não basta saber quanto peso foi perdido, é preciso saber o que foi perdido junto com ele.

O objetivo de um tratamento bem conduzido é reduzir principalmente a gordura corporal, preservando o máximo possível de músculos, força, funcionalidade e estado nutricional. Essa preocupação ganhou ainda mais relevância com a publicação recente de consensos internacionais que colocam a nutrição e o exercício físico no centro do cuidado durante o uso dessas medicações.

Menos comida exige mais qualidade
Um dos principais efeitos desses medicamentos é a redução importante do apetite. Muitas pessoas passam a comer menos e sentem saciedade com pequenas porções. Isso favorece o emagrecimento, mas cria um desafio: quando a quantidade de alimento diminui, cada refeição precisa oferecer maior densidade nutricional.

Proteínas, vitaminas, minerais, fibras e líquidos não podem ser negligenciados simplesmente porque a fome diminuiu.

Durante uma perda de peso expressiva, é esperado que parte do peso eliminado corresponda à massa magra. Estudos mostram que aproximadamente 24% a 30% do peso perdido pode vir desse compartimento, enquanto a maior parte corresponde à gordura corporal.

Mas isso não significa que toda essa perda represente sarcopenia, pois a massa magra inclui músculos, água e outros tecidos. O problema aparece quando essa perda se torna excessiva, especialmente em idosos, pessoas com pouca reserva muscular ou indivíduos que emagrecem rapidamente sem alimentação e treinamento adequados.

Por isso: Proteína e musculação são fundamentais
A ingestão adequada de proteínas é um dos principais cuidados durante o tratamento. Carnes, ovos, peixes, leite e derivados, leguminosas e outras fontes proteicas devem ser distribuídas ao longo do dia.

As recomendações variam de acordo com peso, composição corporal, idade, nível de atividade física e velocidade de perda de peso. Lembrando que a proteína isoladamente não resolve tudo. O treinamento de força é uma das medidas mais importantes para preservar massa muscular e funcionalidade durante o emagrecimento.

A musculação sinaliza ao organismo que aquele tecido continua sendo necessário. Estudos mostram que a combinação de exercício com medicamentos da classe do GLP-1 pode ajudar a preservar massa magra e melhorar a força.

Atenção às vitaminas e minerais
Outro ponto importante são as deficiências nutricionais. Quando a ingestão alimentar cai muito, pode diminuir também o consumo de vitamina D, ferro, cálcio, zinco, magnésio e vitaminas do complexo B.

É importante lembrar, que muitas pessoas com obesidade já apresentam alimentação de baixa qualidade e deficiências antes mesmo de iniciar o medicamento. Portanto, a suplementação não deve ser automática: precisa ser individualizada conforme alimentação, sintomas, exames laboratoriais e condição clínica.

Intestino, água e tolerância alimentar
Náusea, sensação de estômago cheio, refluxo, diarreia e constipação podem ocorrer durante o tratamento.

O consumo de fibras deve ser adequado para evitar piora da distensão abdominal. A hidratação também merece atenção, porque ao comer menos o paciente ingere menos água presente naturalmente nos alimentos.

Refeições menores, comer devagar, reduzir alimentos muito gordurosos e evitar deitar logo após as refeições podem melhorar o refluxo que essas medicações podem causar.
A balança não conta toda a história!

O acompanhamento não deve se limitar ao peso e ao IMC. Circunferência abdominal, composição corporal, força e capacidade funcional também são importantes.

Bioimpedância e densitometria podem ajudar, principalmente em pessoas com maior risco de perda muscular, mas precisam ser interpretadas dentro do contexto clínico.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas “quantos quilos você perdeu?”, mas também:

Você perdeu principalmente gordura? Está preservando seus músculos? Sua força está adequada? Sua alimentação continua nutricionalmente balanceada?

As novas medicações representam um avanço importante no tratamento da obesidade, mas não substituem o cuidado nutricional. Pelo contrário: quando a pessoa come menos, a margem para erros alimentares fica ainda menor.

Lembre-se sempre! O melhor emagrecimento não é o que produz o menor número na balança, mas aquele que reduz gordura, preserva músculos, mantém a força e melhora a saúde a longo prazo.

Dra. Fernanda Mattos, é nutricionista clínica com pós-doutorado em Bioquímica Nutricional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Doutora em Ciências Nutricionais pela UFRJ e Mestrado em Clínica Médica pela mesma instituição. Possui Pós-Graduação em Nutrição Clínica pela UFRJ, além de formação internacional em obesidade pelo Continuing Medical Education Program in Obesity, do Royal College of Physicians and Surgeons do Canadá, e Diploma de Competência em Sobrepeso e Obesidade pelo Colégio Oficial de Médicos de Barcelona. Realiza atendimento em consultório particular, e atua como Docente permanente do Programa de Pós-Graduação de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFRJ. Autora dos livros “Hipertensão: um guia amigável para uma vida saudável” e “Obesidade: da evidência científica à prática clínica”. Seu principal objetivo profissional é promover saúde, qualidade de vida e tratamento individualizado, baseado em evidências científicas e no cuidado humanizado.