O risco de acreditar que o medicamento para emagrecer resolve tudo

Por DRA. DAGHILLA MACEDO

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Um dos assuntos mais comentados atualmente é o “uso das canetas emagrecedoras” e essa popularização não é à toa. Vivemos um momento histórico no tratamento da obesidade, medicamentos análogos ao GLP-1 utilizados no tratamento de diabetes e obesidade, mudaram o cenário terapêutico ao proporcionar resultados positivos no tratamento. Mas, junto a esse avanço, surgiu uma expectativa que merece reflexão: O medicamento resolve todos os problemas relacionados à forma de comer?

A ciência nos mostra que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial. Ela resulta da interação entre fatores genéticos, metabólicos, hormonais, psicológicos, sociais e ambientais. Os medicamentos atuam principalmente sobre mecanismos biológicos relacionados à fome e à saciedade, trazendo benefícios à saúde de muitos pacientes.

No entanto, eles não modificam, por si só, experiências de vida, padrões de comportamento, hábitos consolidados ou a forma como cada pessoa lida com suas emoções. É justamente nesse ponto que a psicologia se torna parte fundamental do tratamento.

Muitas pessoas não comem apenas porque sentem fome. Comem porque estão ansiosas, frustradas, solitárias, cansadas ou sobrecarregadas. A comida pode assumir diferentes significados: Conforto, recompensa, distração ou alívio temporário.

O que observamos hoje com o uso da medicação, está relacionado a diminuição do apetite e a sensação de maior satisfação com menores quantidades de comida. Mas o que fazemos com o que ainda sentimos?

Na prática clínica, é comum encontrar pacientes que relatam sentir menos fome após o início da medicação, mas ainda assim, continuam enfrentando dificuldades na sua relação com a comida.

Isso ocorre porque a fome fisiológica e a alimentação emocional não são exatamente o mesmo fenômeno. Enquanto o medicamento atua nos mecanismos biológicos que regulam o apetite e a saciedade, observamos uma diminuição no comportamento beliscador e no comer compulsivo, mas mesmo com a quantidade reduzida de alimentação ainda pode haver sofrimento emocional.

Em alguns casos, a redução do comportamento alimentar torna mais evidente uma dor que antes era amenizada pela comida. Isso não significa que o medicamento falhou.

Significa apenas que ele estava tratando uma dimensão importante da obesidade, a biológica, sem atuar na dimensão psíquica/emocional que ainda demanda de cuidados.
Por isso, quando a comida deixa de ocupar o papel de regular as emoções, o sofrimento não desaparece, mas deixa de ser mascarado. Esse momento, embora desafiador, pode representar uma oportunidade importante para que o paciente desenvolva novas formas de lidar com suas emoções, sem depender exclusivamente da alimentação e é nesse momento que o acompanhamento profissional psicológico pode ajudar a desenvolver estratégias para o manejo do sofrimento emocional.

Outro aspecto frequentemente esquecido é a construção de hábitos. O medicamento pode facilitar escolhas alimentares e reduzir a intensidade da fome, mas não ensina alguém a organizar a rotina, planejar refeições, lidar com recaídas ou desenvolver estratégias para realizar escolhas alimentares de maior qualidade nutricional. Essas habilidades são aprendidas ao longo do tempo e fazem parte da mudança de comportamento.

Também é importante compreender que a obesidade é uma condição crônica. Assim como ocorre em outras doenças, o tratamento pode exigir acompanhamento prolongado e ajustes terapêuticos. A interrupção do tratamento sem planejamento pode favorecer o retorno da fome e a recuperação do peso, razão pela qual todas as decisões devem ser tomadas em conjunto com a equipe de saúde.

Talvez o maior equívoco seja imaginar que exista um tratamento capaz de substituir o cuidado integral. A medicina oferece recursos cada vez mais eficazes para controlar os mecanismos biológicos da obesidade. A psicologia contribui para compreender os comportamentos, as emoções e as crenças que influenciam a relação com a comida. A nutrição auxilia na construção de um padrão alimentar compatível com a rotina e as necessidades individuais. A atividade física promove benefícios que vão muito além da perda de peso. Essas abordagens não competem entre si, elas se complementam.

Os medicamentos representam um dos maiores avanços da medicina no tratamento da obesidade e esse avanço deve ser celebrado. No entanto, seu maior potencial aparece quando são compreendidos como parte de um cuidado integral. Afinal, reduzir a fome é um passo importante, mas construir uma nova relação com a alimentação e com os cuidados com o corpo é o que torna os resultados mais consistentes e duradouros, com maiores benefícios à saúde.

Daghilla Macedo, é psicóloga clínica e atua sob a abordagem da Gestalt-terapia. É doutoranda em Clínica Médica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e possui Mestrado pelo mesmo programa e instituição. Realiza atendimento em consultório particular, com especial interesse no acompanhamento de pessoas que enfrentam desafios relacionados à obesidade, aos transtornos alimentares e outras demandas emocionais e psicológicas. Respeitando o seu propósito de cuidado integral à saúde de modo humanizado e baseado em evidências científicas.