Perimenopausa: os sintomas que ninguém avisou

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Por DR. RAFAEL MAZZUTTI

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Anos antes de a menstruação parar de vez, o organismo feminino atravessa uma fase de oscilação hormonal, ora com hormônios muito altos, ora muito baixos. Essa fase de transição que pode durar entre quatro e oito anos é chamada de perimenopausa e antecede a menopausa, período em que a falência ovariana se completa e provoca a queda progressiva de estrogênio e progesterona, geralmente entre 45 e 55 anos. Apesar de sua duração e importância clínica, a perimenopausa permanece pouco discutida ou até mesmo negligenciada.

Alguns sintomas já são bem conhecidos, como os fogachos e a menstruação irregular, e não geram dúvida quando aparecem nessa fase. O problema é que a lista de sintomas é bem maior e menos óbvia, raramente conectada à causa hormonal: neblina mental — o brain fog, aquela dificuldade de concentração e de raciocínio claro — e falhas de memória, irritabilidade ou ansiedade que surgem do nada, insônia mesmo sem fogachos, palpitações, dores articulares novas, diminuição da libido e ressecamento vaginal.

É justamente por esses sintomas serem menos conhecidos e menos associados à menopausa que tantas mulheres passam anos sendo tratadas para ansiedade, depressão ou insônia primária, sem que ninguém investigue o ciclo menstrual. O diagnóstico costuma ser tardio, o tratamento muitas vezes equivocado e, pior, fica a mensagem implícita de que tudo o que está acontecendo é só coisa da cabeça da mulher.

É importante que a mulher nessa fase da vida saiba que esses sintomas não são fraqueza nem "coisa da idade", e por isso não devem ser menosprezados nem suportados em silêncio. São consequência de uma oscilação hormonal com mecanismo bem descrito na literatura, para a qual existem estratégias eficazes de manejo.

Podemos iniciar o tratamento por medidas que têm impacto real sobre humor e disposição, como ajuste do sono, prática regular de atividade física e melhora da alimentação. Para sintomas específicos, há opções não hormonais bem estabelecidas. E, para muitas mulheres, a terapia hormonal individualizada e acompanhada por um médico é segura e eficaz quando iniciada no momento certo.

O medo do tratamento hormonal vem em grande parte de um estudo americano de 2002, o WHI (Women's Health Initiative), que superestimou os riscos ao avaliar majoritariamente mulheres já distantes da menopausa. Porém, análises posteriores mostraram que, quando iniciada no momento certo, a terapia tem um perfil de segurança muito mais favorável, a chamada 'janela de oportunidade', hoje reconhecida pelas principais sociedades de menopausa. Por isso, vale conversar com um médico antes de descartar essa opção.

Caso você tenha entre 40 e 55 anos e reconheça alguns desses sintomas, o primeiro passo é não aceitar que "é assim mesmo". Além disso, deve procurar um endocrinologista ou ginecologista e relatar o que vem sentindo, mesmo que, inicialmente, não pareça ter relação com hormônios. Existe explicação, existe nome e existe tratamento. Ninguém precisa passar por essa fase sozinha ou calada.

Dr. Rafael Mazzutti é endocrinologista