Cirurgia bariátrica na era das 'canetas emagrecedoras' - competição ou complementação?

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Por LUIZ GUSTAVO DE OLIVEIRA E SILVA

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Recentemente, observamos um crescimento exponencial no uso dos análogos do GLP-1, denominação técnica dos medicamentos popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras”. Em paralelo, nesse mesmo período, observamos uma redução no número de cirurgias bariátricas realizadas no Brasil e no mundo. A partir daí, passamos a escutar com muita frequência a pergunta: “As canetas vão acabar com a cirurgia bariátrica?”

Anteriormente, as opções de tratamento conservador da obesidade consistiam basicamente em mudanças no estilo de vida (dieta e atividade física) e outras linhas de medicamentos que proporcionavam resultados discretos. Em conjunto, essas estratégias alcançavam uma perda de peso em torno de 5%. De forma mais efetiva, já há algum tempo, contamos com a cirurgia bariátrica e metabólica, um procedimento bem consolidado, capaz de promover perda significativa de peso, chegando a 35-40% do peso corporal total.

Hoje, temos mais uma opção terapêutica: os análogos do GLP-1. Os mais utilizados atualmente são a semaglutida e a tirzepatida, que, por meio de estudos científicos, demonstram perdas de peso em torno de 15 a 20%. Sem dúvida, o surgimento dessas medicações representa um grande avanço, mas será que elas realmente vão substituir a cirurgia bariátrica?

Sabemos que a obesidade é uma doença crônica progressiva que necessita de tratamento contínuo ao longo da vida para evitar reganho de peso. Nesse contexto, vale lembrar que os análogos do GLP-1 podem ter efeitos colaterais e apresentam custos elevados, o que pode limitar seu uso prolongado e levar à interrupção do tratamento, aumentando o risco de recuperação do peso perdido.

A cirurgia bariátrica, por sua vez, continua sendo o tratamento mais efetivo para a obesidade, proporcionando perdas significativas de peso, melhor controle de doenças associadas - como diabetes tipo 2, hipertensão arterial e apneia do sono - e manutenção dos resultados em longo prazo. Entretanto, assim como ocorre em qualquer tratamento para obesidade, a ausência de mudanças no estilo de vida, de acompanhamento multidisciplinar e da adoção de hábitos saudáveis, também pode levar ao reganho de peso.

Diante da complexidade do controle dessa doença, a estratégia mais recomendada para o sucesso terapêutico é a combinação de diferentes abordagens, sempre respeitando cada paciente. Pessoas com sobrepeso, sem doenças associadas, geralmente podem controlar o peso por meio de alimentação equilibrada e prática regular de exercícios físicos. Já pacientes com obesidade leve e/ou comorbidades podem se beneficiar da associação de medicamentos, como os análogos do GLP-1. Quando o excesso de peso é mais importante e refratário a essas condutas, a cirurgia bariátrica pode ser a opção mais adequada.

Considerando a necessidade de tratar a obesidade em longo prazo e a importância da combinação de terapias, uma estratégia atualmente utilizada consiste em iniciar o tratamento de pacientes com obesidade grave com medicamentos, visando reduzir parte do excesso de peso e melhorar suas condições clínicas. Em seguida, o paciente é submetido a cirurgia bariátrica e, posteriormente, caso seja necessário potencializar os resultados ou controlara eventual reganho de peso, a medicação pode ser reintroduzida.

Também vale ressaltar que, independentemente da etapa do tratamento, a mudança do estilo de vida permanece como um dos pilares fundamentais para o sucesso e manutenção dos resultados em longo prazo, reforçando a importância da associação entre diferentes modalidades terapêuticas.

Por fim, diante desse novo cenário de opções para o tratamento da obesidade, o mais importante é compreender que estamos lidando com uma doença complexa e multifatorial, que exige uma abordagem multidisciplinar contínua, mudanças de hábitos e vigilância constante. Somente assim será possível alcançar os principais objetivos do tratamento: promover saúde, qualidade de vida e bem-estar, mantendo o “corpo em equilíbrio”.


Luiz Gustavo de Oliveira e Silva. Possui título de Especialista em Cirurgia geral e de Área de atuação em Cirurgia Bariátrica. Coordenador do Programa de Cirurgia Bariátrica e Metabólica do Hospital Federal de Ipanema. MS-RJ. Fundador do Instituto Metabólica, centro de tratamento da obesidade, doenças metabólicas, cirurgia geral e bariátrica.