Tempo de pandemia: saúde mental nunca foi tão discutida

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A saúde mental nunca foi tão discutida como atualmente. Medos, ansiedade e incertezas fazem parte da vida, mas não de forma tão intensa quanto ao que estamos vivendo agora. Conviver com essa situação é um enorme desafio que pressiona cada vez mais a utilizar recursos psíquicos individuais.

Finalmente temos a esperança que chega com a vacina, mas, lamentavelmente não existe vacina para saúde mental. Qualquer um de nós pode adoecer psiquicamente. A busca por tratamento psicológico tem aumentado exponencialmente e tem ajudado muitas pessoas a manterem um estado emocional mais equilibrado para não serem totalmente “contaminadas” pelo “vírus” do desequilíbrio emocional.

A experiência da escuta durante todo esse período de pandemia evidencia o aparecimento ou agravamento dos transtornos psicológicos de estresse agudo, depressão e ansiedade, não só nos adultos, mas nas crianças e nos jovens.

A necessidade de lidar com os lutos diários, seja de uma morte concreta de um familiar, ou algo que se tinha muita expectativa e não pôde acontecer e/ou precisou ser adiado, tem sido rotina na vida de cada um de nós.

Diferenciar a depressão da tristeza também tem sido um trabalho constante. A tristeza é um sentimento e tende a passar, já a depressão é uma doença, uma forma de tristeza profunda que não cessa, que pode ser incapacitante e que traz necessidade importante de acompanhamento médico e psicológico.

A situação do confinamento revela uma série de sentimentos diversos, contraditórios, ambivalentes. Lidar com esses sentimentos - a raiva, o medo- exige um trabalho intenso de humildade e de elaboração psíquica.

A constatação de que não se tem controle sobre a vida nos coloca de frente com o desamparo humano. Não somos onipotentes, somos humanos, portanto, temos medos, nos fragilizamos, ficamos tristes, choramos e quando conseguimos seguir em frente é porque encontramos uma forma de lidar com as próprias fragilidades.

Há uma sensação de aceleração do tempo que nos empurra a correr para dentro de nós da mesma forma em que nos coloca a necessidade de lidar com o hoje, com o presente, de forma equilibrada para não sucumbir. Como é difícil dar conta de tudo isso!

As crianças muito pequenas perdem muito porque precisam de experiências concretas, precisam se socializar com outras crianças. Diariamente observamos nos pequenos através de seus sintomas, que o nível de ansiedade tem aumentado (roer unhas, choros intensos, explosão de raiva, dificuldade com o sono e alimentação, entre outros).

Nos adolescentes se nota o confinamento no próprio quarto como uma alternativa para a não convivência em casa ou, alguns mais irritados por não poderem conviver mais próximos dos seus pares, algo tão importante nessa época da adolescência.

Entre os casais há o desgaste da convivência diária. Ficar o tempo todo junto é tempo demais! A convivência diária forçada e a falta de privacidade individual contribuem para os destemperos entre os casais e em casos mais graves, a violência doméstica. Fica evidente a importância de cada um ter um espaço para a própria individualidade. Os escapes foram retirados ou limitados. Aquele futebol no fim da tarde, almoços de trabalho, ou encontro com as amigas.

O medo constante e a angustia, em muitas situações, são tamponadas pelo uso excessivo de substâncias anestesiadoras como álcool e drogas, o que acaba por piorar o estado emocional dessas pessoas.

Agora mais do que nunca é preciso aprender a cuidar de si mesmo e isso ajudará a cuidar do entorno. O desespero retira a capacidade de pensar. É preciso estabelecer um lugar dentro da mente para continuar pensando, apesar dos medos. Seremos frustrados sim e é preciso amadurecer para lidar com isso, a realidade se impõe.

Algumas atitudes podem ajudar nessa travessia como por exemplo, ajustar uma rotina, praticar exercícios, conversar sobre os sentimentos, estabelecer limites em casa na rotina dos casais, evitar o consumo excessivo de noticiários e criar alternativas criativas. Precisamos lembrar sempre que o distanciamento é físico e não afetivo. Os laços sociais ainda que distantes fisicamente, nos ajudam a reconhecer e identificar no outro, sentimentos semelhantes aos nossos e aliviar o desespero do momento.

RENATA BENTO é psicanalista - Psicóloga .Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Membro da International Psychoanalytical Association - UK.Membro da Federación Psicoanalítica de América Latina - Fepal