'Vai faltar jovem pela 1ª vez na história', diz pesquisador que analisa população brasileira

O número de jovens no Brasil está em queda "acelerada". É o que mostra pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV)

© AFP 2021 / Douglas Magno
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Intitulada Jovens: Projeções Populacionais, Percepções e Políticas Públicas, a pesquis reune dados sobre jovens de 15 a 29 anos de idade. Para Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais da FGV, a redução é preocupante.

"O Brasil tem uma proporção de jovens parecida com o mundo hoje, mas vai cair duas vezes mais rápido nos próximos 35 anos e o impacto é faltar mão de obra. Talvez pela primeira vez na história brasileira vai faltar população jovem. Vai limitar o potencial de crescimento do Brasil. O bônus demográfico que soprava a favor do crescimento brasileiro, começa agora a soprar contra", diz o pesquisador.

Para Neri, a tendência brasileira só é comparável, no momento, à da China. Pelas estatísticas levantadas pela FGV, este ano a população jovem brasileira vai ser de menos de 50 milhões de pessoas e, até o final do século, o número vai cair a 25 milhões. "É uma tendência muito acelerada", diz.

Insatisfação com a vida

A pesquisa também traz um retrato da satisfação dos jovens brasileiros com a vida. "A quantidade de sensações negativas, já desde antes da pandemia vinha aumentando, como a raiva, por exemplo", diz Neri.

Em 2020, para 59% dos entrevistados havia algum motivo de preocupação no dia anterior, mostra a pesquisa. O percentual foi um novo recorde. Em 2019, 50% dos jovens relataram estar preocupados e entre 2015 e 2018 o número ficou em 44%.

A satisfação com a qualidade da educação caiu. Em 2020, 41% dos entrevistados disseram estar satisfeitos com o sistema de ensino, contra 56% em 2019. "Isso é uma queda, durante a pandemia, quatro vezes maior do que a queda de uma média de 40 países", diz o pesquisador.

Embora o medo de crimes tenha diminuído entre os jovens durante a pandemia do novo coronavírus, o Marcelo Neri explica que "houve uma espécie de troca", já que sensações como "preocupação e raiva" pioraram.

"O Brasil aumentou muito a quantidade de sensações negativas [...]. E durante a pandemia piorou também as sensações positivas, como alegria ou a própria satisfação com a vida."

Marcelo Neri ressalta ainda que a pesquisa tira os Brasil de uma "situação de conforto, no sentido de falar: 'o mundo está complexo, o Brasil também está complexo'". De acordo com a pesquisa, "o Brasil está muito mais complexo", reflete o pesquisador.(com agência Sputnik Brasil)