O "sem jeito" manda lembranças
Esta é uma velha expressão do tempo de nossos avós, quando nos queriam criticar sobre alguma situação de dificuldade em manusear alguma coisa. Peguei este gancho, em linguagem jornalística, para comentar o que está ocorrendo quanto às interdições para as obras que estão se realizando na cidade, em benefício de seu embelezamento, dizem, e a sua mobilidade.
Fazia tempo que eu não circulava nos arredores do prédio do antigo Ministério da Marinha. No inicio do mês de abril tive que comparecer a uma cerimônia da posse de um almirante de minha estreita relação, a ser realizada no salão nobre do edifício Barão de Ladário, no seu vigésimo segundo andar, situado em frente ao antigo prédio do ministério.
Como o cesso à Praça Mauá, que se fazia pelo lado esquerdo do antigo ministério, com destino à Rua Dom Gerardo, agora interditada para as obras do túnel a ser o substituto da Perimetral elevada, naquele trecho, o tráfego naquele local, ficou um inferno. Na Rua Visconde de Itaboraí, paralela ao final da Rua Primeiro de Março, que dá cesso ao antigo ministério e, por conseguinte ao Arsenal de Marinha, coexistem os ônibus e os demais veículos. Os primeiros para assomar à Rua Visconde de Inhaúma e os demais veículos para a mesma rua e para as dependências da Marinha, criando um notável nó. Irritado pela demora que tive para poder estacionar nas dependências navais, ao chegar ao meu destino, olhei, lá do alto, pela janela, e pude constatar o final da Rua Primeiro de Março subutilizada por coletivos e com boa fluidez, em contraste com a Visconde de Itaboraí, parada e congestionada. A coisa ali não é pior graças à intervenção de um fuzileiro naval que, à guisa de guarda de trânsito, tenta colocar ordem naquela “zorra”.Constatei que o simples cumprimento de uma regra básica de engenharia de tráfego, a separação do tráfego pesado do leve, resolveria a questão. Sugeri ao almirante comandante do Primeiro Distrito Naval, que oficiasse, solicitando á CET-Rio que os ônibus não trafegassem pela Rua Visconde de Itaboraí e seguissem pela Rua Primeiro de Março, para assomarem à Rua Visconde de Inhaúma. Melhoraria de muito aquele nó, praticamente liberando o acesso ás dependências navais. Se vai fazer o tal ofício não sei, de minha parte dei a minha colaboração de profissional.
Mas, muito pior está vindo por aí. Estão anunciando, para as obras de construção da linha 4 do metrô, grandes interdições nos bairros do Leblon e de Ipanema, bloqueando o acesso às garagens dos residentes nas áreas afetadas pelas interdições. Por causa desta ameaça, o título deste artigo.
Quando, em 1968, viajei à Europa para estudos de operação de trânsito, a convite dos governos de Israel e da Alemanha, aproveitei para tomar conhecimento das providências tomadas nas cidades de Frankfurt, Colônia e Munique, para a circulação de tráfego em face das interdições para a construção dos seus metrôs (U- Bahn, em alemão). Preparava-me para enfrentar o que iria acontecer no Rio, ainda naquele governo, ao qual eu servia. Não foi necessário para o metrô, em que só pude atuar, mais tarde, no governo Faria Lima, mas, foi fundamental para diminuir, ao mínimo, o transtorno aos moradores da Avenida Atlântica, durante as obras do seu alargamento. Ninguém ficou privado de seu direito de utilizar as suas garagens. O que anunciam agora como solução para os moradores atingidos pelas interdições, são de um primarismo incompatível com a responsabilidade que têm para com o contribuinte.
Aposto que mais uma vez vai ser convocada a ação da Justiça para dirimir direitos entre os pagadores do- IPTU e os que são remunerados com aquela arrecadação. Façam jus à responsabilidade que lhes foi confiada, ou peçam socorro a quem sabe.
*Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio
