Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

Trânsito

E chegamos a um beco sem saída 

Jornal do BrasilCelso Franco 

A necessária prioridade para o transporte público principal do Rio — o de ônibus — exigiu a implantação do sistema BRS, com a sua criação de pistas exclusivas, no mundo inteiro com uma só faixa de rolamento. Aqui foram necessárias duas, a fim de atender ao excessivo número de ônibus existentes e necessários conforme a demanda.

Como resultado lógico, sobraram, na via principal, a Avenida Presidente Vargas, de acesso do tráfego com destino ao Centro, oriundo das zonas Norte e Oeste, apenas duas faixas de rolamento. Ou seja, voltamos à capacidade existente, antes que foosse construída a dita avenida. Assim, como está, não haverá “doutor que dê jeito”. Se falta espaço, é preciso racioná-lo ou, melhor, racionalizar a sua utilização. É o que prego há mais de oito anos, defendendo o sistema de Utilização Raciona das Vias, o URV.

Qualquer um que observe o tráfego de carros de passeio, cumprindo, indevidamente, por falta de opção digna, o transporte casa-trabalho-casa, verá que, em cada carro só viaja o seu motorista. Não pode continuar assim. Noventa e cinco por cento dos carros que se arrastam, com velocidade igual ou menor que a dos pedestres (3km/h), só transportam um ocupante.

É preciso ter a coragem política de se eliminar o “colesterol ruim”, que é o carro só com um ocupante, nos horários de pico, substituindo-o pelo “colesterol bom”, o carro com mais de um ocupante, dono de carro, praticando o transporte solidário, o car pool. Tal providência, com a implantação do sistema URV, pode reduzir o volume de carros de passeio circulando no horário de pico matutino, de 50 a 80%. Tudo isto é possível, com controle eletrônico e computadorizado, gerando uma renda de 400 mil reais para cada 100 mil carros, em benefício do subsídio do transporte público. Chegamos a um “sackgasse”, como se diz na Alemanha, país de melhor trânsito do mundo, para definir uma  “rua sem saída”.

É verdade que o sistema URV exige a criação de uma elevada “taxa de congestionamento” para os praticantes do “colesterol ruim”, e um pequeno pedágio urbano (2 reais por dia útil) para os praticantes do “colesterol bom”, incentivado com prêmios semanais, mediante sorteio, em dinheiro.

Tal medida não é politicamente simpática para os atingidos mas consegue resultados surpreendentes para mobilidade urbana, o que é desejado pelos usuários e os responsáveis pelo trânsito.

O problema exposto, em excelente matéria na edição de O Globo da terça-feira que passou (13/03), exige uma solução corajosa, lógica, urgente. Caso contrário, tenho que plagiar, pelas mesmas razões, o monsieur Jerône Valcke, quando disse que seria necessário “se donner um coup de pied aux fesses”, o que em francês, como expressão idiomática, significa acelerar o que se espera como ação. No nosso caso, o empurrão deve ser aplicado nos políticos, a quem cabe ter a coragem de decidir, não nos técnicos que desejam aplicá-la, até como experiência, como aconteceu em São Paulo, em 2007, quando a CET de lá levou ao prefeito a sugestão, e esta foi repelida. A nós, pobres vítimas, só nos resta esperar para ver com se sai deste “sackgasse”.

Celso Franco, oficial de Marinha reformado (comandante), foi diretor de Trânsito do antigo estado da Guanabara e presidente da CET-Rio. - acfranco@globo.com

Tags: brs, Celso, coluna, franco, Trânsito

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