Bravo aos policiais federais de trânsito
Aqueles que me honram com a sua leitura, desde os meus primórdios no caderno “Automóveis e Turismo”, em 1968, devem ter notado que sempre faço referências aos ensinamentos de Sir Alker Tripp, policial da Scotland Yard, que chegou a dirigir o trânsito de Londres, merecer o título de Sir e a condecoração de ser CBE (Commander British Empire).
Tomei conhecimento dele na segunda edição de seu livro, Road Traffic and its Control, publicada em 1950, sendo a primeira edição publicada em 1938. Eu a comprei em Barrow in Furness, em Lake District, na Inglaterra, quando embarcado, como Guarda Marinha, no navio escola brasileiro “Almirante Saldanha”, que realizava, por quatro meses, uma modernização em suas máquinas, no estaleiro local da Vickers.
Por coincidência do destino, o também recém-formado, mas em engenharia, Gerardo Penna Firme, meu colega de colégio e meu futuro diretor de engenharia, no DETRAN, também a adquiria, aqui no Rio.
Vejam que o nome do livro se refere ao “traffic control” e não ao “traffic management”, ou seja, ao exercício da ciência do controle do tráfego e não ao seu gerenciamento. É lamentável que as atuais gerações nem tenham ouvido falar no grande técnico inglês, que escreveu um verdadeiro manual para quem deseja exercer a direção do trânsito de uma cidade. Objetivos e atuais até hoje, os seus aconselhamentos.
Quando em 1967 mal tínhamos assumido o DETRAN, fomos convocados, eu e Gerardo ao Comando do Primeiro Exército, na noite da véspera do evento, para organizarmos o esquema de tráfego para o enterro do Presidente Castelo Branco. Foi no livro do mestre Alker Tripp que encontramos a solução copiando o esquema por ele organizado, em Londres, para coroação do Rei Jorge VI , em 1936. Usamos o sistema de “percintas”, onde o tráfego entra onde quer e sai onde nós queremos que saia, preservando a área isolada e garantindo a sua fluidez.
Tudo isto que aqui escrevi sobre o grande mestre serviu de introdução para parabenizar efusivamente a Polícia Rodoviária Federal, que acaba de anunciar a proibição do tráfego de grandes caminhões nas estradas do norte do nosso estado, no período do feriadão de Carnaval. A lentidão e o volume deste tipo de veículos provoca ultrapassagens arriscadas e perigosas, maior fator dos acidentes que sempre ocorrem nos feriados prolongados. Cansei de aconselhar isto nos meus escritos aqui, de todas as semanas, relatando que esta prática é usada nas excelentes “autobahnen” alemãs, há quase meio século. Graças ao erro crasso de colocar o policiamento num ministério diferente do DNIT, quando anteriormente ele era subordinado ao então DNER, fez com que esta iniciativa venha a comprovar o que sempre digo: o engenheiro de tráfego não está preparado para operação do tráfego. É “control”, não é “management.”
Sobre este assunto, se encontra o seguinte comentário no livro eterno e básico de Sir Alker Tripp: O engenheiro de tráfego não será capaz de projetar a construção que melhor atenda ao que se deseja de uma rodovia ou via urbana, sem que conheça completamente os detalhes e, do mais amplo ponto de vista, o que se deseja conseguir, com a obra que está sendo projetada. Seu treinamento específico e sua tarefa estão relacionadas à construção e à sinalização da construção. Embora ele tenha estudado o tráfego detalhadamente, através dos levantamentos e dados estatísticos, como um observador especializado que é, não estará habilitado em operar o tráfego que irá circular na sua obra. Para suplementar o seu trabalho, ele deverá recorrer ao policial especializado, que é a quem cabe a operação, desde o início de sua existência. Com o contato estreito e a cordial inter-relação, estes dois profissionais especializados estão começando a formar uma forte combinação de forças, cada um instruindo e socorrendo o outro. Isto foi escrito em 1938
No governo Collor, mais de meio século depois, a Polícia Rodoviária Federal deixou de ser parceira e colaboradora estreita do engenheiro rodoviário. As estatísticas de acidentes demonstram o erro cometido.
Mais uma vez, bravo aos policiais federais de trânsito por esta medida, que demonstra o seu elevado preparo profissional.
