Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Trânsito

A  avenida mais importante do Brasil

Jornal do BrasilCelso Franco

A TV Bandeirantes, em louvável iniciativa, apresentou, na semana que passou, em seu Jornal da Noite, uma interessante matéria mostrando todas as mazelas que acontecem na Via Dutra — rodovia que liga as mais importantes cidades do Brasil e que, quando nos fins de semana prolongados apresenta um fluxo de carros de São Paulo para o Rio, mais parece uma avenida. Por causa deste fato e do seu contínuo fluxo pesado, a série televisiva chamou-a de “Avenida Dutra.”

Sempre apresentou ela deficiências de sinalização e de medidas construtivas de segurança, como, por exemplo, um sistema de guard rail eficaz, o que poderia ter evitado o grave acidente em que faleceu o presidente Juscelino. Já não vou cobrar a configuração do piso, apresentando um raiamento, similar ao dos pneus, com o propósito de evitar a aquaplanagem, perigosíssima, como nas autobahnen alemãs, pois seria pedir demais. Reconheço que seria uma obra muito cara dotá-la de quatro faixas em cada pista, que, aí, sim, poderia ser considerada de primeira categoria e não de quarta, como a classificou o maior empresário de sinalização rodoviária da Alemanha, Hern Shnupp, numa viagem que por ela fizemos juntos, em meu carro, até São Paulo, em 1976.

Tão deficiente ela é em termos de segurança que, uma vez, um grupo de médicos sob o patrocínio de um banco, se bem me lembro, criou um serviço de assistência para acidentados, com o feliz nome de Anjos do Asfalto. Salvaram-se várias vidas enquanto durou este serviço. Para que tenham uma ideia do amadorismo a que estamos sujeitos, quando escrevi o livro Código de Trânsito Brasileiro, comentários e sugestões, convidei um de seus diretores para que redigisse o capítulo Do acidente de trânsito. No texto que redigiu chamava ele, enfaticamente, a atenção para que ninguém tocasse no motorista acidentado. Pois bem, quando o Detran teve a infeliz ideia de obrigar a um exame escrito sobre o Código de Trânsito, havia perguntas sobre primeiros socorros ao acidentado, a serem prestados por qualquer um que chegasse ao local do acidente. No lançamento do atual Código, chegaram até a obrigar a se ter no carro um estojo de primeiros socorros. Estas exigências contrariavam, frontalmente, as recomendações de um médico competente e especializado, com vasta experiência no assunto.

Disse que a ideia foi infeliz, simplesmente porque quem dirige é o Mister Hide, e quem fazia o exame escrito era o Dr Jékill, que é exigido de todos os motoristas, eu inclusive, tornando-o, por conseguinte, inócuo.

O principal defeito da Via Dutra é a sinalização precária e a fiscalização deficiente. Se adicionarmos a esta situação a falsa ilusão de imortalidade do motorista, aliada à sua notória ignorância ou desobediência das leis que regulam o trânsito, é lógica a estatística macabra dos acidentes desta “avenida”.

Estou cansado de alertar que a fiscalização, estática e de raio de ação curto, não funciona. Em 1968, quando, estagiando na Polícia Rodoviária do estado de Essen, na Alemanha, participei, no horário do pique vespertino, do patrulhamento de helicóptero das suas magníficas rodovias, que era complementado por patrulhamento por motos, estas por sua vez orientadas, via rádio, pelo helicóptero, medida de extraordinária  eficiência.

Se, humildemente, o renovado Dnit aceitar estas sugestões sobre o policiamento — recriar um serviço tipo Anjos do Asfalto e instituir o cartão de ponto a ser carregado pelo motorista de caminhão, com o propósito de evitar a sobrecarga de trabalho —  a operação da via não ficará perfeita mas  irá melhorar  muito. Afinal, já dizia o engenheiro Edson Passos, patrono da engenharia: “O ótimo é inimigo do bom”.

Tags: Celso, coluna, Dutra, segunda, Trânsito

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