Apesar de que uma das mais célebres frases sobre o assunto seja atribuída ao Jaguar, embora ele diga ter sido Paulo Francis o criador da antológica expressão de botequim “Intelectual não vai à praia, bebe”, informo aos leitores que, por intermédio de uma linguagem esportiva, será utilizada a estratégia de parábolas de outro convicto boêmio, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Destarte, a crônica irá apontar os ingredientes necessários à constituição da gênese intelectiva de um ser humano a partir de um vocabulário típico do país do futebol.
Registrado o prólogo, eis que me surge a primeira dúvida a ser desatada pelo esquema tático do discurso jornalístico, quando me pergunto se se deve iniciar o artigo pelo passe ou pelo drible. Aliás, aconselho que se principie por bons óculos de grau e biblioteca. Feito isto, creio que de bom alvitre seja começar pelo fundamento do futebol que prima pelo ludíbrio ao adversário – o drible –, visto que, quando adentrar livrarias, seja essencial ultrapassar prateleiras repletas de best-sellers de shopping centers, com a autêntica habilidade e irreverência do menino-diabo Neymar.
Por esta razão pode-se entender o desígnio de se ter optado pelo drible ao invés do passe, para incitar a discussão em torno do método mais eficaz de se constituir um genuíno intelectual de laboratório moldado nas divisões de base dos grandes centros acadêmicos. Os primeiros dribles serão aplicados pelos atletas que irão se prevenir contra os volumes de obras de autoajuda e misticismo empilhados no campo de treinamento, a fim de que se certifique a descobrir o caminho do gol, não obstante as adversidades e obstáculos impostos pelo mercado editorial. Neste caso, é necessário ir até a linha de fundo do estabelecimento comercial para cruzar com os livros que, de fato e direito, servirão para formar o craque; digo, o intelectual.
Após as devidas habilitações no tocante ao drible, convém observar que o passe deverá ser o maior aliado de um sujeito que se pretende aprimorar na arte do diálogo com autores consagrados, habituados a arrotar vaidades em cafés ou botequins. Atenção: mesmo se não for dado à patuscada e bebida, jamais desperdice a companhia de um escritor ou filósofo, a título de expulsão do jogo ou coisa pior. Com humildade e modéstia, aproxime-se sem demonstrar tédio ou arrogância, até que conquiste a confiança de meia dúzia de medalhões aptos à recomendação de uma editora, coluna de jornal, prefácio de romance etc. Lembre-se de que o domínio da agradável palestra literária, qual bola do pênalti de final de Copa do Mundo, irá conduzir o aprendiz de intelectual ao estrelato restrito ao seleto cardume de celebridades; quiçá, até à Academia Brasileira de Letras.
Não se esqueça de que é importante procurar transparecer que os encontros com os mestres das letras são casuais, para demostrar que fora apenas coincidência a sutil obstrução e não uma estratégia de marcação homem a homem ou por zona do campo de futebol. Para conjugação de elementos futebolísticos, ainda restar-lhe-ia o chute e o cabeceio que, sem sombra de dúvida, representam o instante categórico de consagração do intelectual mirim ou juvenil. Estes, que serão representados pela publicação de uma obra de vulto e respeito, deverão ser mortais e indefensáveis, de modo a inutilizar quaisquer possibilidades de ressalva crítica dos analistas detratores de plantão que, no universo da bola, são conhecidos como corneteiros de arquibancada, ávidos por achincalhar os incautos iniciantes na árdua execução do pensamento político, filosófico ou ficcional.
Enfim, para se tornar um intelectual é preciso dominar, para além dos seis fundamentos básicos da formação futebolística – o drible, o passe, o controle, a marcação, o cabeceio e o chute –, a difícil arte da sobrevivência de manuscritos e alfarrábios, cujas produções líricas ou científicas o façam um ser digno do elogio e do aplauso público, por sobre o tempo de sua escritura em disfarces de posteridade.
* Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras pela UFF, é escritor e professor universitário. Seus livros mais recentes são ‘O enigma Diadorim’ (Nitpress) e ‘Antologia teatral’ (Ed. Macabéa). - wanderlourenco.