Em Uma ética laica, Richard Rorty sustenta que “estamos no mundo não para olhar como as coisas são mas para produzir, fazer, transformar a realidade”. Para Rorty, deveríamos efetivamente deixar de pensar no que um ideal pretende de nós e de nos questionarmos sobre a natureza de nossas obrigações. Assim, o hábito de se deixar levar de um lado para outro como que pelo vento é considerado uma abertura para novas possibilidades, a disponibilidade de levar em conta todas as sugestões sobre o que poderia aumentar a felicidade humana.
Há uma tentativa de se fundar uma ética racional e empírica, em suma, laica. Mas a satisfação dos meus desejos e interesses ocasiona efeitos sobre a satisfação dos desejos e interesses dos outros. Relações sociais jamais se reduzem a simples justaposições de indivíduos. Estar junto significa naturalmente participar da trama conjunta de influências recíprocas. Mais do que simplesmente resolver conflitos, os acordos devem organizá-los, de tal sorte que o bem comum possa prevalecer. Como gestar acordos que não sejam apenas reflexo da maioria, mas do pensar em conjunto?
Um pouco da qualidade da democracia está em desencadear processos capazes de valorizar a crítica que vem do outro, em especial porque é a maneira mais produtiva de aprender. Daí a convicção de que, para qualificar a democracia, é crucial qualificar o cidadão, em particular através de processos educativos adequados.
Na esfera pública democrática, as referências precisam fazer parte do mundo da vida de todos. Existe o ideal cristão de uma sociedade plural em que todos amam a todos assim como amam a si mesmos.
* Tarcisio Padilha Junior é engenheiro. - [email protected]