Jornal do Brasil

Quinta-feira, 31 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Quino e Mafalda: criador e criatura 

Maria Clara Bingemer* 

Joaquin Salvador Lavado Tejón nasceu em Guaymallén, na Província de Mendoza, Argentina, em 17 de julho de 1932.  Está fazendo, portanto, 80 anos este que é mais conhecido como Quino.  Pensador, historiador gráfico e cartunista genial, Quino é o criador da imortal menina Mafalda, que pensa e questiona todo mundo à sua volta, desde os pais até os amiguinhos da escola e da rua, sem excluir outros adultos menos íntimos. 

Mafalda, a imortal criaturinha de Quino, foi publicada pela primeira vez como história em quadrinhos no periódico Leoplán, nos anos 1960, e depois passou a ser publicada regularmente no semanário Front page, cujo editor era amigo de Quino. Posteriormente, foi publicado no jornal O Mundo.  Logo após, Mafalda ganhou mundo. A reviravolta cultural que marcou o ano de 1968 sem dúvida contribuiu para isso. Livros com as tirinhas de Quino foram publicados na Espanha, na Itália e em Portugal, embora vigiados de perto pela censura, que se empenhava em rotular as tirinhas como próprias apenas para adultos.  

Até que, em 1973, o mundo leva um susto quando Quino anuncia que decidira terminar com Mafalda.  Considerava que suas ideias já se esgotavam, que não produzia nada de novo.  Mudou-se para Milão e continuou fazendo cartuns de humor da melhor qualidade. Mafalda marcou as gerações daqueles anos e até hoje continua fazendo sucesso entre as novas gerações.  Por quê?  Qual seu segredo?  Talvez o fato de ser uma menina de seu tempo e ao mesmo tempo ter um perfil de abertura universal que lhe dá amplidão de raio de influência.  Mafalda é uma menina de 6 anos de idade que odeia sopa, dizendo representar para a infância o mesmo que o comunismo para a democracia. Adora os Beatles e o desenho do Pica-Pau.  

Comporta-se como uma típica menina de sua idade, mas ao mesmo tempo tem uma visão aguda e crítica da vida. O que mais impressiona e fascina em Mafalda é seu espírito crítico, que vive questionando o mundo à sua volta e principalmente o contexto da década de 1960 na qual vive.  Aos pais, faz perguntas que os deixam acordados à noite, dando voltas ao cérebro para tentar responder à questionadora filha.  Porém, não encontramos em Mafalda certa perversidade e desejo de fazer os outros chorar, presente lamentavelmente em muitas crianças.  

Mafalda é crítica e questionadora, mas cheia de compaixão e ternura pelos outros e pelo mundo onde vive, que considera extremamente doente.  Por isso, põe esparadrapos para curar as feridas do globo terrestre onde estuda geografia em casa. Antes de tomar medidas curativas para a doença do planeta, Mafalda se preocupa com ele. Dialoga muito com o rádio, que veicula notícias as mais preocupantes: guerras, conflitos de todos os tipos, desgraças etc. E responde às notícias que ouve.  Por exemplo, ao ouvir que o papa fez um chamado para a paz, pergunta ao rádio: "E deu ocupado como sempre, não é?" Uma das críticas pioneiras de Mafalda, que certamente influenciou a sociedade argentina de seu tempo, além da de outros países, é sua visão do papel da mulher na sociedade, que não poupa sequer sua mãe, Raquel, mostrada pela tirinha como uma típica dona de casa, sem haver completado os estudos e que entra em constantes conflitos com a filha, sobretudo ao preparar sopa para ela.  

Outro objeto da crítica de Mafalda é sua amiga Susanita, uma menina fútil. Seu único objetivo na vida é encontrar um marido rico e de boa aparência e ter uma quantidade de filhos acima da média. É uma grande fofoqueira e egoísta, e sempre encontra um jeito de falar sobre o vizinho do irmão da cunhada de alguém. Mafalda muitas vezes discute com ela e perde a paciência com a amiguinha, que apresenta horizontes tão curtos. Por outro lado, relaciona-se muito bem com o sonhador menino Felipe, que odeia a escola, mas frequentemente tem dramas de consciência a partir de seu sentido congênito de responsabilidade, que o instiga sem cessar. O resto do grupo de amigos é composto pelo capitalista Manolito, obcecado com os negócios do armazém do pai e com dinheiro, péssimo estudante, representante egrégio do capitalismo que adora quando a inflação assola seu país, já que assim lhe parece estar lucrando mais. Tem também  Miguelito, amigo de Mafalda, um pouco mais jovem do que os outros. Filho único, com uma personalidade igualmente única, Miguelito é dono de um enorme coração.  

Tem dificuldade de compreender o que pensa sua inteligente amiga, sempre entendendo seus conselhos  de maneira literal. Além disso, é um personagem egocêntrico, que parece achar que o mundo gira à sua volta. Em casa, Mafalda tem como companheiro o irmãozinho Guille, que começa a despertar para o mundo, e a tartaruguinha Burocracia, lenta como costumam ser esses animais e que faz jus ao nome. Nesta celebração de seus 80 anos, cabe agradecer de coração  o traço e sobretudo a imaginação e sensibilidade de Quino, que nos deu uma personagem tão encantadora e consciente, que nos faz rir, certamente, mas sobretudo pensar. Tomara que Mafalda continue sendo uma influência para crianças e jovens, é o que desejamos de coração. 

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, professora do Departamento de Teologia da PUC-Rio, é autora de 'Simone Weil - A força e a fraqueza do amor' (Ed. Rocco).

Tags: aberta, clara, coluna, Maria, Sociedade

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