Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

País - Sociedade Aberta

Um senhor maduro 

Jornal do BrasilSelvino Heck

É um senhor maduro o que fez anos sexta dia 10, embora vez que outra pratique algumas inconsequências ou ande em companhias não tão recomendáveis. Mas está adulto, senhor de si, pleno de vida, dono de seu nariz e destino.

Falo do Partido dos Trabalhadores, fundado dia 10 de fevereiro de 1980. A tentação, para quem é seu fundador, é relembrar o passado, daqueles tempos bons, mas também difíceis. De como a base popular participava da política através dos núcleos do PT, como o que organizamos em 1980 na Lomba do Pinheiro, periferia de Porto Alegre, na casa do pedreiro Seu Cantilho, onde nos reuníamos para aprender a fazer política, a participar de eleições com nossos candidatos populares, coisas que nunca fizéramos antes na vida. De como o partido fazia parte da vida da gente, como o faziam a Associação de Moradores, as Oposições Sindicais, as Comunidades Eclesiais de Base e a Pastoral Operária, além dos grupos de reflexão da Bíblia. De como lutávamos pela democratização do Brasil, por eleições diretas. De como os primeiros mandatos de deputados e vereadores eram mandatos populares, colados à vida do povo, presentes nas lutas e mobilizações sociais dos pobres e trabalhadores. De como o Orçamento Participativo, Olívio Dutra prefeito de Porto Alegre, foi uma revolução silenciosa no jeito de governar com o povo, experiência que ganhou o mundo.

Passaram-se 32 anos. A criança cresceu, o jovem apresentou-se à sociedade, angariou simpatias crescentes e chegou à Presidência da República. O senhor maduro, bem instalado na vida, precisa, porém, olhar para os lados, fazer um balanço e decidir o que fazer do futuro. Três são os dilemas principais: ser movimento e instituição; como lidar com os fins e os meios; qual o projeto, o sonho, a utopia.

No 1º Congresso do PT, o partido assumiu-se ao mesmo tempo movimento e instituição. Movimento, por relacionar-se com a sociedade, em especial com os movimentos sociais, populares, sindical e as forças transformadoras, através de um programa, deve estar em permanente mudança e aberto ao novo, com capacidade de refletir sobre os novos tempos e os novos atores que surgem na conjuntura. Instituição, porque, por via eleitoral, participa de eleições e governa dentro das regras do jogo, está submetido à vida democrática e a suas imposições legais. 

Os fins não justificam o uso de quaisquer meios, seja na disputa política eleitoral, seja na prática de governar ou de atuar no Parlamento, ou na relação com a sociedade. A prática democrática e educativa, a vivência cotidiana da ética na política são a garantia de que o mundo novo, o novo homem e a nova mulher que se quer construir e ser, de fato vão acontecer.

Partido político como o PT, de esquerda, que veio para mudar, só tem sentido e sobrevive ao tempo se tiver um programa de transformação, se seus filiados e militantes mantiverem vivo o sonho de uma sociedade democrática, com justiça social, com igualdade econômica e lutarem pela utopia de "um outro mundo possível".

Ao longo dos 32 anos do senhor maduro, muitas vezes o partido-instituição matou o partido-movimento, os supostos fins libertários, como em episódios mais ou menos recentes e em processos eleitorais. Abrigaram meios nem sempre recomendáveis e de acordo com um partido da mudança, e muitas vezes o projeto, o sonho, a utopia renderam-se ao pragmatismo das alianças políticas, às formas de governar nem sempre  transparentes e transformadoras.

Como tudo que se cria como movimento, institucionaliza-se com o tempo, a dificuldade maior é manter o carisma, garantir acesa a chama de não se entregar ao jogo do mercado e da corrupção, não deixar-se dominar pela rotina e pela mesmice,  mirar no horizonte e não ficar limitado ao chão onde se pisa. Não é fácil, mas é necessário, para qualquer comunidade, congregação religiosa, movimento social e partido político. Para não tornar-se um morto-vivo ou ser varrido da história. 

Mesmo com estes dilemas, o Partido dos Trabalhadores tem o que dizer e o que comemorar, no contexto histórico da política brasileira. Os tempos mudaram, e a verdade se impôs. Ao contrário do que se dizia, o PT nunca foi bicho-papão. Prova disso são as realizações ao longo dos 32 anos, a luta pela democratização do país, as inovações dos governos em que participou e participa a dedicação a um projeto de país soberano, a defesa dos mais pobres e dos trabalhadores, razão principal de sua criação, a ressignificação da política como instrumento importante de ação coletiva e da construção de uma nação justa e soberana.

Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República

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