Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

País - Sociedade Aberta

Vênus e Júpiter dominam o Carnaval 

Jornal do BrasilRonaldo Mourão

         Desde as mais recuadas eras, os diferentes povos estabeleceram algumas festas de grande alegria. Assim, encontram-se entre os egípcios as festas de Ísis e do touro ápis; as bacanais entre os gregos; as lupercais e as saturnais entre os romanos. Todas envolviam festins, danças e disfarces. Embora seja muito difícil caracterizar a origem verdadeira do Carnaval, parece que os nossos atuais festejos estão intimamente associados às duas últimas festas romanas.

         Como todos esses festejos — que consistiam essencialmente em mascaradas, disfarces e danças — já estivessem de tal modo implantados nos costumes quando do aparecimento do cristianismo, a Igreja só teve uma saída: adotou-os e, ao mesmo tempo, procurou santificá-los.

         Esses festejos, de janeiro e fevereiro, estão associados às antigas cerimônias pagãs de abertura do ano, como já demonstraram os peritos em folclore cristão. Não eram simples rituais desprovidos de significação mais profunda, como se poderia supor inicialmente. Na realidade, essas festas populares cíclicas dos países cristãos, que serviam para abrir o ano e anunciar a vinda da primavera, estão todas elas intimamente associadas ao fenômeno astronômico do solstício de inverno, no Hemisfério Norte, de onde surgiram todas essas práticas. As Igrejas católica e ortodoxa herdaram tais festas ou rituais do mundo greco-romano, que, por seu lado, as teria recebido do Oriente. Assim, na realidade, todos os festejos cíclicos, tais como o próprio Carnaval, estariam associados aos antigos rituais pagãos referentes às mudanças da estação, quando então se adoravam os deuses naturais da fecundidade, do crescimento, da colheita e da abundância, praticando-se penitências ou até mesmo o sacrifício de seres vivos. Essas festas continuaram tradicionalmente a ser respeitadas mesmo nas regiões que não apresentam as mesmas mudanças meteorológicas. Assim, as festas do Carnaval, comemoradas durante o inverno no Hemisfério Norte, são celebradas no Hemisfério Sul, em pleno verão.

         Durante o reinado de Momo em 2012, Vênus e Júpiter serão os objetos celestes mais brilhantes do lado do poente. O primeiro com seu brilho será visível, logo após o pôr do Sol, e o segundo vai dominar o céu vespertino, visível nas luzes crepusculares do poente. Esses planetas dominarão o Carnaval. Assim, Vênus, a estrela do amor, será visível a partir do anoitecer, será segundo maior planeta do sistema do sistema solar do céu vespertino. Talvez mera coincidência, mas o Carnaval deste ano vai coincidir com um período de maior luminosidade de Vênus e Júpiter.

         Nos anos 1901 a 1905, uma das mais cantadas canções dos cordões era uma adaptação do O'abre alas, de Chiquinha Gonzaga (1847-1935), feita para o Cordão Rosa de Ouro, que se popularizou sob a forma:

         O'abre alas

         que eu quero  passar

         Estrela d’Alva 

         do Carnavá.

         Tendo o Carnaval nascido sob a inspiração astropoética do planeta Vênus, foi uma das canções dos compositores João de Barro e Noel Rosa, batizada inicialmente de Linda pequena, e mais conhecida pelo título de As pastorinhas, que fez da alegoria venusiana um motivo constante em todos os Carnavais desde 1937:

         A Estrela d’Alva 

         No céu desponta

         E a Lua anda tonta

         Com tamanho esplendor

         E as pastorinhas

         Pra consolo da Lua

         Vão cantando na rua

         Lindos versos de amor.

         Sem dúvida os foliões e os não foliões terão neste fim do mês uma ocasião única para observar o céu e cantar, contemplando os planetas Vênus e Júpiter.

Ronaldo Rogério de Freitas Mourão é astrônomo. - mourao@ronaldomourao.com

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