Leituras
152 é a página. Incrível! Sento na varanda do meu apê, segundo andar, Praia da Armação, Florianópolis (Floripa para os íntimos), perto do meio-dia. Chimarrão pronto, ponho-me a ler A elegância do ouriço (Muriel Barbery, Companhia das Letras), presenteado por uma amiga. De vez em quando dou uma olhada na praia em frente: ver se passa alguma sereia digna de nota para um sessentão que não está morto.
Quase silêncio, dia nublado, o movimento de pessoas é pequeno, só o mar — marzão continua batendo, a 50 metros. No fundo, ancorados, os barcos dos pescadores, à espera da hora de buscar as pessoas na Ilha do Campeche, que enxergo ao longe, ou para saírem de noite para a pescaria que garante sua sobrevivência.
Eis que, na página 152, deparo-me com o inusitado, o inesperado: a explicação do título do livro, A elegância do ouriço. Justo na página 152! A coincidência me leva a sorrir, quieto, imóvel, parado. Pois, 152 era o meu número no Seminário Seráfico de Taquari, número que ficava preso na roupa, por dentro, tricotado a mão, para que nenhum dos outros mais de 100 seminaristas se enganasse e trocasse de calça, de pijama, de camisa e todos soubessem de quem era a cueca, a toalha, o calção, o lençol e tudo mais que era o pouco da nossa "propriedade franciscana". Imagine, mais de 100 adolescentes no mesmo prédio de três andares: como distinguir, saber de quem era cada roupa.
Na página 152 dá-se a explicação da elegância do ouriço. Escreve a autora: "A senhora Michel tem a elegância do ouriço: por fora, é crivada de espinhos, uma verdadeira fortaleza, mas tenho a intuição de que dentro é tão simplesmente requintada quanto os ouriços, que são uns bichinhos falsamente indolentes, ferozmente solitários e terrivelmente elegantes". Eu, tirando alguns detalhes e exageros. De alguma forma, vi-me perfeita-imperfeitamente retratado. Não sei se por isso, ou por alguma outra razão, minha amiga presenteou-me exatamente com este livro. Se, por acaso, ela enxergou algo de ouriço em mim, que sou, embora não seguramente na sua elegância, interna ou externa, que definitivamente não tenho, mas talvez ou seguramente seus espinhos repelentes por dentro e por fora, e sua solidão.
Ao mesmo tempo o livro relata a aproximação de vida, de pensamento de um senhora do povo, senhora Michel, síndica de um prédio, que vai tornando-se Renée ao longo do romance, e esconde sua sabedoria e beleza interior. Seu encontro com um cineasta japonês, Kakuro Ozu, que logo desnuda sua riqueza interior, e com uma pré-adolescente, Paloma, de doze anos, distante de seus pais, políticos e ricos, pretensos socialistas franceses, muda a vida dos três. Descobrem-se mutuamente e dão outro sentido a suas vidas, até o desfecho final, que não vou contar.
Foi o presente mais lindo que recebi faz tempo. Chorei, chorei muito. Olhei para o mar à minha frente, todo azul, solaço de rachar. Você me deu a esperança, diz Paloma em determinado momento!
Sempre no nunca, fala a personagem principal, senhora Michel ou Renée! E as palavras finais de A elegância do ouriço: “Pois, por você, de agora em diante perseguirei os sempre no nunca. A beleza neste mundo”. Lindo.
Pausa, parênteses ou virada de página. Passo para outro livro, A vida quer é coragem (Ricardo Batista Amaral, Primeira Pessoa), sobre a vida da presidenta Dilma Rousseff. O livro publicou em primeira mão a foto mais famosa de 2011, que está na contracapa: Dilma, pouco mais de 20 anos, é tirada da cadeia para ser interrogada, com um olhar altivo e firme. Dois militares, ao fundo, põem as mãos sobre o rosto e os olhos, por vergonha ou para não serem reconhecidos pela história.
Conheço muitos personagens do livro e acompanhei, diretamente ou indiretamente, muitos dos fatos e acontecimentos narrados, especialmente os que se referem ao Rio Grande do Sul, ao governo Lula e à última campanha eleitoral. Assim mesmo surpreendi-me mais de uma vez com a força das palavras e das histórias narradas.
A elegância do ouriço e A vida quer é coragem têm, ao mesmo tempo, nada e muito e comum. No primeiro, pessoas encontram-se entre si e redescobrem o sentido da vida. No segundo, a militância, o sonho, às vezes em situações impossíveis, acabam triunfando, inesperadamente, contra todas as evidências de um país onde o machismo sempre imperou, e ainda impera, um país com pouca história de democracia e muitas ditaduras. Uma ex-presa política tornou-se presidenta depois de um operário. A luta e a consciência do povo triunfaram.
Nada melhor que começar 2012 assim. (O espaço não permite falar de outros dois livros: A privataria tucana eConversa sobre a fé e a ciência – Frei Betto e Marcelo Gleiser). Leiam, por favor, antes que eu conte mais ou tudo!
Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.
