ASSINE
search button

A verdadeira importância 

Compartilhar

        A humanidade não deve sua existência ao sonho dos humanistas, tampouco aos acontecimentos políticos mas, quase exclusivamente, ao extraordinário desenvolvimento tecnológico do próprio Ocidente. 

        A despeito da grande influência do conceito de liberdade interior sobre a tradição do pensamento, o homem não experimentaria a condição de estar livre caso esta não fosse uma realidade tangível. Daí Karl Jaspers dizer que a verdade surge como uma substância existencial clarificada e articulada pela razão, apelando ao existir racional do outro, compreensível e capaz de compreender tudo o mais. Para Jaspers, a unidade e a solidariedade entre a humanidade não pode consistir num acordo  sobre uma única religião, uma única filosofia, uma única forma de governo, mas na fé de que o múltiplo aponta para o Uno.

        A unidade frágil realizada pelo domínio tecnológico só pode ser assegurada, segundo Jaspers, dentro de um quadro de acordos mútuos universais. Além da possibilidade de uma guerra atômica (basta lembrar a ameaça representada pela, renovada, ditadura da Coreia do Norte atualmente), cada guerra, por mais limitada que seja no uso de meios e territórios, afeta imediata e diretamente toda a humanidade.

        Fato é que o nosso mundo abriga simpatias e hostilidades entre nações impossíveis de se reduzirem a fatores econômicos. A vida política faz parte de processos históricos que tendem a ser tão automáticos como os processos naturais, muito embora tenham sido acionados pelo homem. Uma vez que processos históricos se tenham tornado automáticos, não são menos destruidores que os processos naturais vitais. Entretanto, o que normalmente permanece intacto em épocas de ruína é a capacidade de começar, que anima e inspira todas as atividades humanas e que constitui a fonte de todas as coisas grandes e belas.

        “Se é verdade que ação e começo são essencialmente idênticos”, diz Hannah Arendt, “segue-se que uma capacidade de realizar milagres deve ser incluída também na gama das faculdades humanas”. A experiência que nos diz que os acontecimentos são milagres não é arbitrária, tampouco artificial; ao contrário, ela é quase uma trivialidade.

        Os processos históricos são criados e constantemente interrompidos pela iniciativa humana. A ação humana, projetada numa teia de relações onde fins numerosos e antagônicos são perseguidos, quase nunca satisfaz sua intenção original. Quanto mais uma pessoa aprofunda a própria experiência, tanto mais sua experiência terá elementos em comum com outras semelhantes, mais originais são as reações e os resultados, e descobrirá uma nova aptidão para maravilhar-se, muito menos natural do que olhar com indiferença.

        Maravilhar-se indica que a pessoa tem uma vivacidade mais intensa, é mais interessada, espera, reage. É essencialmente uma consciência de que há muita coisa na vida a sondar, novos pontos de vista a explorar e novas profundezas a investigar. A verdadeira importância do maravilhar-se evidencia-se no alto conceito de Cristo pela atitude das crianças!

Tarcisio Padilha Junior é engenheiro