Jornal do Brasil

Quinta-feira, 11 de Abril de 2013

País - Sociedade Aberta

A nuvem de gafanhotos

Jornal do BrasilWilson Figueiredo

        Tão cedo se saberá se o que faltou ao Brasil foi mesmo oposição ou se o que atrapalhou a festa foi excesso de governo. Meio a meio não foi. Haverá surpresa quando, mais à frente, for conveniente avaliar o que se passa atualmente entre nós. Visto de longe, foi uma nuvem de gafanhotos a título de consultoria. Mais claramente, quando o que está em questão for visto à luz de resultados mensuráveis, e já sem a preocupação de salvar as aparências.

        O período histórico, visto em sequência, vai acabar  mesmo conhecido como a era sustentabilidade, das  ligações profundas com o consultorismo avassalador que veio para confundir, como dizia o Chacrinha (de quem  brasileiro ingrato nem se lembra mais). Daí o poder mágico de que se vale a sustentabilidade, que não diz a que veio, nem quando pretende fazer as malas e levar mundo afora o consultorismo e sua ética de circunstância, a última palavra em arte de governar.

        Por enquanto, de um lado e de outro da questão nacional, o que se diz  não passa de cortina de fumaça mas de cigarro de salão, soprada nos olhos do adversário. Com fumaça não há sustentabilidade. A culpa é volátil,  e o consultorismo está mais para charuto que faz a diferença social entre ricos e pobres. Não é para o bico da classe média, que conhece e respeita as diferenças: o pequeno burguês parte do princípio de que o enriquecimento pessoal é dificílimo e, honestamente, impossível. Dada a  impossibilidade geral  — a não ser no caso de habilitar-se a uma consultoria de elevada produtividade — o pequeno burguês se sente tolhido. E, já que não ascende socialmente (para dizer o  mínimo), trata de se segurar para não regredir .

        O que está  sendo obtido realmente é a transferência do hábito de fumar, que deixou de ser um privilégio masculino e já se habilita à tolerância geral como desafio assumido pelas mulheres, que aspiram à condição de musas da sustentabilidade, não importa do que seja, desde que se sustentem com os próprios meios, mediante consultorias que percorram a linha reta para a fortuna. Slogan em cogitação: homem, não!

        A oposição faz, mais como gesto social do que político, pose de quem diz a última palavra, mais pela falta de coerência da que qualquer outro pretexto. O oposicionismo se tornou uma estridência abafada, incapaz de repercutir. Um soluço engolido sem chamar a atenção de quem passa. O governismo, pelo menos, disfarça alguma satisfação quando ajuda a derrubar ministros, pois é o máximo que se poderia esperar no país onde, com toda a certeza, a guilhotina enferrujaria. Noel Rosa viu longe em brasilidade quando disse que “a verdade, meu amigo, mora num poço. / É Pilatos lá na Bíblia, quem nos diz / e também faleceu, por ter pescoço, / o infeliz  autor da guilhotina de Paris”.

        O governo Dilma Rolusseff tem sido um exercício de equilíbrio diário entre o desconforto de se expor a interpretações que não lhe interessam e a circunstância de que ninguém  ignora  que entre público e privado já não há diferença a respeitar. A presidente tem razões, como dizia Pascal, que a própria razão desconhece, mesmo aquelas das quais interesses ocultos se utilizam. Por mais que não pareçam úteis, é preciso deixar claras as diferenças, sem esquecer as semelhanças que entrelaçam gente que veio de Lula e os que nada têm em comum com o modo lulista de governar.

        A primeira semelhança a ser considerada é que Lula não passou à sucessora a administração segundo o modelo porteira fechada, embora  sorria com a aparência que ficou. Do jeito que parece, o horizonte em que se situa a próxima sucessão presidencial dá para ver Lula tão longe quanto possível. A ela, presidente, cabe fingir que não percebe.

        Na opinião pública paira a suspeita de que o Brasil aguenta perfeitamente saber a verdade, mesmo que não seja toda a verdade, e sim apenas a parcela  mais exposta sob a forma de assessoria que ocupa o lugar da formiga saúva na República Velha. Nem o Brasil acabou com a formiga, nem a formiga ficou bem na história. A República melhorou a retórica, e a saúva saiu de cena. Falta saber quem vai pagar a conta.

Wilson Figueiredo é jornalista e colunista do Jornal do Brasil

Tags: Artigo, coluna, JB, jornal do brasil, jornalismo, opinião, wilson figueiredo

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Comentários

1 comentário
  • Roberto, Rio Grande,RS

    Ainda bem que o governo atual demite ministros e outros por improbidade. No governo anterior não se demitia ninguém e não se apurava nada. Como se sabe FHC barrou sistematicamente toda e qualquer CPI, e defendeu com unhas e dentes qualquer um que fosse denunciado. Ainda bem que essa época da Idade Média Brasileira, passou.
    Sugiro ao cronista uma profunda análise do livro,que já é best seller no Brasil, A Privataria Tucana. Consegui o exemplar de uma livraria online e já estou nas últimas páginas, chocado com o que aconteceu no Brasil,de 1996 até 2002, debaixo do nariz de todo cronista investigativo,que nessa época devia estar atento às novelinhas da Globo.

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