Jornal do Brasil

Sexta-feira, 18 de Abril de 2014

País - Sociedade Aberta

Efeitos e consequências da crise financeira mundial

Clóvis Abreu Vieira

Considerando o velho debate entre otimistas e pessimistas, o que nos reserva em 2012? Certamente, os otimistas irão argumentar que “o pior ficou para trás”, notadamente na União Européia, onde os efeitos da crise financeira foram mais intensos, e inicia-se uma transição para o crescimento. Para os pessimistas, tudo é “questão de tempo” para que a moratória se espalhe como um vírus e até mesmo que a depressão faça reviver a crise de 1929

Esta desigualdade de entendimento permite-nos intuir que ambos não estejam corretos em suas previsões. Aos otimistas, que fique claro que uma crise dessa magnitude não se resolve tão rápido, devendo-se prolongar por um prazo maior, quiçá a Copa do Mundo no Brasil. Aos pessimistas cabe lembrar que estão apressando as graves conseqüências, sem levar em conta que a sociedade ainda acredita em saídas e os agentes econômicos consideram ser a alocação de recursos em títulos públicos uma forma sensata de poupar para o futuro.

O cenário para a economia mundial indica que os EUA deverão perdurar um longo período de crescimento em torno de 1% a.a, e o FOMC deverá anunciar novas medidas de estímulo à economia. A União Européia ficará próxima de zero, e condicionada às diferenciações entre países componentes, com um melhor desempenho para a Alemanha. O recente acordo fiscal desenhado na reunião de Bruxelas compra tempo para a sua solução, ativo mais precioso nos dias atuais.

A China, que tem uma economia bastante dinâmica, será preciso verificar como ficará o país que mais se tem beneficiado do crescimento mundial nas últimas décadas. A ameaça inflacionária está sendo controlada, ainda que se deva ressaltar que é muito mais em função da queda dos preços no mercado internacional e apenas uma pequena parcela do aperto monetário. Fica a dúvida,  se a expansão da capacidade produtiva, projetada para uma economia mundial em crescimento não sofrerá desgastes.

Até que ponto a economia brasileira diante do cenário internacional de significativa redução de demanda, queda de preços das exportações, maior percepção de risco de investidores externos e até mesmo de uma maior capacidade ociosa mundial permanecerá imune?

Embora se admita que cresça bem menos que os 7,5% a.a. de 2011, deveremos ficar em torno de 2,9%, ainda assim melhor posicionada que nos últimos anos. Claro que não se pode desprezar o fato de a inflação estar nos ameaçando e o consumo interno impondo resistência á queda dos preços, mas as commodities poderão ajudar e em 2012 estaremos beirando os 6%a.a. Ainda, o emprego deve se estabilizar, os reajustes salariais diminuirão e a indústria de duráveis, construção e o varejo de maior valor serão os mais prejudicados.

Para as contas externas o desaquecimento econômico reduzirá o impacto das importações, compensando o impacto negativo das exportações. No mundo todo, os capitais se retrairão, mas com o aumento da atratividade relativa do Brasil, será tolerável a minimização do influxo e a continuidade da acumulação de reservas.

Cabe notar, que de agora em diante, estaremos convivendo com um câmbio oscilando entre R$ 1,70/ R$ 1.90 por força do BACEN e na expectativa do comportamento da entrada de recursos externos. Os juros, em movimento descendente, poderão recuar ainda mais em 2012, se a política fiscal se comprometer com a austeridade. Caso contrário, a inflação dispara.

Agora, mudanças e transições na economia mundial como esta, sempre significam desafios e envolvem incertezas e decisões que precisam ser melhor avaliadas. Neste contexto, os países emergentes, como o Brasil, precisam estar preparados para enfrentar obstáculos e aproveitar as oportunidades.

Não se pode desprezar o fato de que em um mundo próximo da recessão, a melhor alternativa para o crescimento é formular uma política econômica que possibilite uma maior atratividade de capitais, que buscarão países com maiores possibilidades de desenvolvimento. Cabe lembrar, que no início de 2012, o PIB dos países desenvolvidos deverá ser equivalente ao que eles detinham em 2007.

Por fim, este quadro induz a repor a questão da economia brasileira, que requer avanços na sua base tecnológica, na infra-estrutura econômica, na baixa qualidade da educação, na reduzida capacidade competitiva de sua atividade industrial e na baixa eficácia dos órgãos governamentais.

Clóvis Abreu Vieira é economista

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