A reeleição de Daniel Ortega na Nicarágua, no dia 6 de novembro, representa maior poder à Frente Nacional de Libertação Sandinista (FSLN), que agora é responsável pela maioria no governo nos próximos cinco anos, permitindo aos sandinistas mudanças radicais no país.
A reeleição de Daniel Ortega na Nicarágua foi alvo de duras críticas por não deter legitimidade. Os meios de comunicação do país apontam graves irregularidades no pleito, minando a legitimidade do processo. As eleições foram marcadas por alegações de anomalias e incidentes, como os confrontos entre opositores e sandinistas. As quatro forças políticas concorrentes com a FSLN acusaram o Conselho do Supremo Eleitoral da Nicarágua de executar um golpe, por meio de fraudes. Por sua vez, os Estados Unidos e a União Europeia não reconheceram a reeleição como legítima, devido à falta de transparência. E a Organização dos Estados Americanos (OEA) sofreu obstáculos na tentativa de monitorar o processo de eleição.
Embora os líderes da FSLN tenham pedido aos nicaraguenses apoio para trabalharem juntos em defesa do país, dificilmente, haverá apoio de toda a sociedade. Assim, face a tais acusações de irregularidades eleitorais, as organizações políticas e a sociedade civil estão pessimistas com o futuro político do país. O governo de Ortega tem contribuído para o enfraquecimento das instituições democráticas nicaraguenses. Desde o mandato anterior, Ortega trabalha pela concentração do seu poder, além de ter anulado a validade da norma constitucional que proibia a reeleição presidencial e dos prefeitos. A estratégia do presidente é muito semelhante à estratégia política de Hugo Chávez: eleições forjadas e crescente concentração de poder. Sua reeleição prova a contínua deterioração das instituições democráticas no país, como acontece na Venezuela.
A relação entre Nicarágua e Venezuela não se limita a semelhante estratégica política. Durante a Guerra Fria, a FSLN recebia apoio financeiro, político e militar de Cuba e da União Soviética. Atualmente, também líder da FSLN, Daniel Ortega, para enfrentar o movimento contragoverno, financiado e apoiado politicamente pelos Estados Unidos, aliou-se à Venezuela. No seu primeiro mandato (2007-2011), Ortega foi favorecido pela cooperação econômica com o governo de Chávez, recebendo 500 milhões de dólares por ano.
Esse fundo, em grande parte, destinou-se aos programas sociais em favor dos camponeses, trabalhadores, saúde, educação e infraestrutura, configurando atitudes de um governo neopopulista — como de Hugo Chávez. Além de Ortega manter uma relação estreita com o regime de Caracas, utiliza a retórica esquerdista e revolucionária. Em troca, a Venezuela presta ajuda financeira maciça, oferecendo o petróleo pela metade do preço, além dos 2 bilhões de dólares que recebeu nos últimos quatro anos, que equivalem a um quinto do Produto Interno Bruto da Nicarágua, consagrando o país como o segundo de mais elevado crescimento na América Central.
Portanto, ao realizar essa parceria econômica, o governo da Nicarágua parece querer trilhar o mesmo caminho, com políticas sociais intensas para garantir o apoio da população, um governo cada vez mais autoritário, e um regime democrático esfacelado. A maior diferença em relação ao governo venezuelano é o pragmatismo de Ortega nas questões econômicas.
Ortega segue uma política macroeconômica ortodoxa, atraindo investimentos estrangeiros, promovendo exportações, além dos grandes esforços para controlar o crescimento da dívida e melhorar o sistema de regulação bancária. Assim, o governo mantém um tom populista, garantindo a ajuda recebida da Venezuela, sem afetar as políticas macroeconômicas do país, aproximando-se da elite de Nicarágua, e sem se chocar com os Estados Unidos. Contudo, tal pragmatismo está longe de assegurar um governo estável, que promova o crescimento, sem se distanciar do compromisso político democrático.
Regiane Bressan, doutoranda e mestre em Integração da América Latina (Prolam-USP), é professora do curso de relações internacionais nas Faculdades Integradas Rio Branco