Jornal do Brasil

Terça-feira, 2 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

Dois grandes contistas brasileiros

Felipe Pena

        O conto parece não ser uma forma narrativa devidamente valorizada no Brasil. Poucos são os contistas que conseguem publicar por editoras importantes e ter seus trabalhos avaliados, o que é lastimável, já que o país tem escritores especialistas na forma curta, como Rubem Fonseca, Sérgio Sant’Anna e Marcelino Freire, só pra citar três clássicos exemplos, já me desculpando por todos os outros que não mencionei. 

        Na contramão dessa tendência, vale ressaltar dois autores contemporâneos. O primeiro é Marcelo Moutinho, que acaba de lançar A palavra ausente, pela editora Rocco. Em suas histórias, Moutinho explora cenários corriqueiros para se aprofundar na angústia dos personagens. Todos os contos têm a perda, a espera ou o silêncio como fio condutor, o que justifica o título da obra. Este é o terceiro livro de contos de Marcelo, que também é autor de Memória dos barcos (editora 7 Letras, 2001) e Somos todos iguais esta noite (editora Rocco, 2006). Além disso, Moutinho foi organizador de diversas coletâneas de escritores nacionais e internacionais, o que comprova sua predileção pela narrativa curta, já que é um de seus principais divulgadores.

        O segundo contista cuja obra quero ressaltar é João Anzanello Carrascoza, que, no ano passado publicou Espinhos e alfinetes, pela editora Record, livro que foi indicado a diversos prêmios em 2011. Os onze contos reunidos neste volume confirmam o gosto pela carpintaria estilística presente na literatura de Carrascoza. Entretanto, ao contrário de outros escritores contemporâneos, Carrascoza não tem na construção linguística o único objetivo de sua narrativa. Embora a preocupação com linguagem ocupe grande parte da obra, seu foco principal ainda é na precariedade da condição humana.

        Este é o quinto livro de contos do autor, que também escreve para o público infanto-juvenil. Aliás, tal atividade parece ter forte influência nas histórias deEspinhos e alfinetes, pois o olhar sobre a infância está presente em quase todos os textos. Carrascoza carrega na dramaticidade das relações entre pais e filhos de maneira poética, através de um encantamento peculiar, que é, ao mesmo tempo, sensível e preciso: “O pai voltou à sala, abotoado em seus silêncios. O menino sabia que era hora de não perturbá-lo, de só admirá-lo a ponto de se esquecer dele, num falso esquecimento”.

        Os contos de Carrascoza estão repletos de lirismo, mas não de sentimentalismo. Com muita habilidade, o autor consegue se equilibrar entre o ambiente onírico da fantasia e a dura percepção da realidade. Não seria exagero apontá-lo como um dos melhores contistas do país.

Felipe Pena, jornalista, escritor e professor da UFF, é doutor em literatura pela PUC, com pós-doutorado em semiologia pela Sorbonne, e autor de onze livros, entre eles o romance 'O verso do cartão de embarque' (editora Record, 2011)

Tags: Artigo, carrascoza, crônica, felipe pena, JB

Compartilhe:

Postar um comentário

Faça login ou assine para comentar.