Jornal do Brasil

Terça-feira, 28 de Julho de 2015

País - Sociedade Aberta

Carta aberta ao ilustríssimo governador do estado do Rio de Janeiro

Wander Lourenço de Oliveira

Prezado governador Sérgio Cabral Filho, subscrevo-me por meio desta missiva para, publicamente, reivindicar um antigo direito social de uma parcela da sociedade que, segundo consta nos registros históricos fluminenses, em muito contribuiu para êxito e ascensão nos primórdios da sua aclamada trajetória política – os desassistidos idosos do estado do Rio de Janeiro.  Refiro-me ao catastrófico patamar de desrespeito e humilhação no tocante à Saúde Pública, a que são arremessados os padecentes da terceira idade nos hospitais da rede estadual, capitaneada à deriva pelo "ministrável" Sérgio Cortez. 

Há inclusive inúmeros casos de internação no Hospital Azevedo Lima, em Niterói, em que o ancião paciente do mal administrado setor de ortopedia, muitas das vezes em seu enferrujado leito de morte, vem a ser obrigado a conviver com homicidas, traficantes de drogas, sequestradores e assaltantes de banco alvejados por bala de fogo sob custódia de sentinelas pertencentes ao quadro da Polícia Militar. Por obséquio, senhor governador, com a máxima urgência, procure se preocupar com estes seus fiéis eleitores que, com responsabilidade e esperança, o ajudaram a assumir o atual cargo de maior importância, juntamente com a eleição para o Senado da República.

Por gratidão aos anciãos eleitores e suas respectivas famílias, governador Sérgio Cabral, procure aproveitar os investimentos da Copa do Mundo/2014 e a Olimpíada/2016, para viabilizar a construção de um Hospital da Terceira Idade, para atender com excelência a população com mais de 60 anos, cujos parcos rendimentos de suas aposentadorias não podem arcar com as altas mensalidades de um plano de saúde. Sugiro uma justa homenagem ao cardiologista Adib Domingos Jatene para batizar o Centro de Reabilitação do Idoso que deverá, por determinação de um decreto assinado por suas habilidosas mãos, ser assistido por profissionais habilitados em suas múltiplas funções fisioterápicas, ambulatoriais e cirúrgicas de um modo geral. 

Peço apenas honradez e sensibilidade, meu nobre governante, diante do sórdido patamar de descaso e sofrimento daqueles que, efusivamente, comemoraram com Vossa Excelência a última e legítima vitória de sua reeleição, em primeiro turno, para governador do estado do Rio de Janeiro.  Se for útil e preciso, meu caro Sérgio Cabral Filho, afirmo que nesta correspondência posso até acalentar a sua frágil memória com as lembranças de longínquas promessas que, na plenitude do caloroso discurso de palanque de campanha, asseverava-se que o combalido cidadão da Terceira Idade seria recompensado pelo apoio irrestrito ao revolucionário projeto de cidadania e resgate da dignidade dos incautos e decrépitos doentes da rede pública de saúde, vítimas de uma hipocrisia viciada por desprezíveis e habituais práticas eleitoreiras.  

Explicito também que os atenuantes acenos enviados por intermédio das Unidades de Pronto Atendimento, popularmente conhecidas como UPAs, com atendimento 24 horas, não surtem efeito, porque quem recorre aos “alçapões refrigerados do Cabral”, diga-se de passagem, em qualquer faixa etária, reconhece literalmente na carne a nítida precariedade dos serviços médico-hospitalares repletos de negligentes ausências. A outra opção de atendimento para os alquebrados padecentes da rede pública de saúde seria o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), que se caracteriza por representar um “centro de excelência no tratamento de doenças e traumas ortopédicos de média e alta complexidades”. Até que de boa-fé os idosos confiariam na divulgação pela internet de consideráveis dados estatísticos, cujos números exaltam o poder de diálogo com o SUS, caso as pessoas não aguardassem uma média de três a cinco anos por uma intervenção cirúrgica.     

Estimado governador, este depoimento será ilustrado com a história do ex-bancário aposentado senhor Altamiro Gomes de Oliveira, que, após se acidentar em dezembro de 2010, deu entrada na emergência de um hospital da rede pública; e, mesmo sendo constatada a fratura, recebera alta do médico de plantão do Hospital Azevedo Lima. Ao retornar no dia seguinte com dores insuportáveis, o doutor Wilton Pimenta o encaminhou para UPA/Fonseca que, pela gravidade do ferimento, de imediato devolveu-o ao hospital.  Após uma semana sem atendimento, enfim o paciente recebeu ordem de internação numa maca de corredor da unidade, onde contraiu uma infecção hospitalar que quase lhe mutilara o membro esquerdo fraturado.  Com um quadro de erisipela, o idoso de 69 anos ficou internado por aproximadamente dois meses na ala masculina da enfermaria ortopédica a poder de antibióticos e tranquilizantes. 

Quando a ferida cicatrizou, pela complexidade da fratura, o paciente não conseguiu vaga para a cirurgia e, hoje, após nove meses da fatídica queda, o idoso permanece com o braço aleijado por falta de recursos humanos e financeiros. Governador Sérgio Cabral Filho, este senhor é meu pai; e, para encerrar, faço votos de que a edificação do Hospital da Terceira Idade – Centro de Habilitação do Idoso Adib Jatene –, se concretize à luz de uma redenção humana. Enfim, peço a Deus que sem isto o seu festejado progenitor jamais necessite passar pelo constrangimento de ser atendido pela rede pública de saúde do estado do Rio de Janeiro.        

Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e de ‘O enigma Diadorim’

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