Em
O nascimento da crônica, Machado de
Assis ressalta que o meio certo de iniciá-la deve ser por uma trivialidade;
todavia, peço permissão ao mestre para desobedecê-lo, já que por estas mal
traçadas linhas homenagear-se-á o centenário do ator, dramaturgo e radialista
Mário Lago. Dito isto, reporto-me aos idos de 1941, ocasião em que o poeta
escreveu os célebres versos que retratariam a história de uma lavadeira da
cantora Aracy de Almeida que, por ser mulher de consciência, labutava de sol a
sol para sustentar a família de nove filhos, Amélia dos Santos Ferreira, em
parceria com Ataulfo Alves.
No ano seguinte, os compositores inscreveram a canção Ai, que saudades da Amélia no Concurso de Carnaval, a ser realizado no Estádio de Laranjeiras do Fluminense Futebol Clube. É fato que em disputa direta estava entre outras a composição imortalizada por Herivelto Martins e Grande Otelo Praça Onze: “Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais escola de samba, não vai / (...) Guardai os vossos pandeiros, guardai / Porque a escola de samba não sai”. Reza a lenda que este samba era o favorito para abocanhar o primeiro lugar e surgira em decorrência de Otelo ter insistido com Herivelton para transformar em música a anunciada destruição da histórica passarela do samba, que sucumbiria para o prefeito Henrique Dodsworth construir uma avenida a se tornar a principal via de locomoção entre a Zona Norte e Sul da cidade do Rio de Janeiro.
A música de autoria de Lago e Ataulfo fora desprezada por todos os grandes intérpretes da época, inclusive a ponto de Carlos Galhardo afirmar que a tal Amélia era “música para acompanhar enterro”. Diante da desfeita, o próprio Ataulfo Alves decide gravar e entrar na contenda contra Sandália de prata (Pedro Caetano / Alcir Pires Vermelho), defendida por Francisco Alves: “Pega uma sandália cor de prata / Põe nos pés de uma mulata / Vê como ela vale ouro”. Além desta mencionada composição havia no páreo uma outra canção de idêntica temática intitulada Emília, de Wilson Batista e Haroldo Lobo: “Eu quero uma mulher, / que saiba lavar e cozinhar / Que de manhã cedo, me acorde na hora de trabalhar / Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz / Emília, Emília, Emília, eu não posso mais”. E, sorrateiramente, se insinuava a canção Nega do cabelo duro, de David Nasser e Rubens Soares: “Nega do cabelo duro / Qual é o pente que te penteia, ô nega”, na voz dos Anjos do Inferno.
Apesar do decantado favoritismo de Praça Onze, os autores de Amélia trabalhavam na divulgação do seu samba em bailes pré-carnavalescos e na Rádio Nacional, onde Lago assinava uma crônica diária. O programa ia ao ar no horário do almoço e narrava o cotidiano de uma infeliz dona de casa, sofredora maltratada pelo esposo grosseiro e avarento. Artimanhas de poeta a forjar uma identificação com os admiradores ouvintes do programa... Até que no dia do concurso as arquibancadas encontravam-se abarrotadas por um público ávido por reverências e contentações, quando definiu-se que a grande batalha se travaria entre Praça Onze e Ai que saudades da Amélia. Ainda mais que Herivelton Martins, acompanhado pelo Trio de Ouro, composto por ele, Dalva de Oliveira e Nilo Chagas, apresentou a canção com a sestrosa mulata Jupira, a empunhar como estandarte a bandeira do Fluminense, cercada de ritmistas das agremiações cariocas comandados por um apito a pontuar as evoluções e batucadas de sua escola de samba de bolso: “Vão acabar com a Praça Onze / Não vai haver mais escola de samba, não vai / Chora o tamborim / Chora o morro inteiro.”
Ao que a plateia foi ao delírio e Lago obrigado a lamentar com o parceiro: “Perdemos, Ataulfo, perdemos”. Porém, o mestre havia preparado uma surpresa: convidou o parceiro ao palco para ler a tal crônica; e, a seguir, recebeu as pastoras da Academia de Samba. Diante de estrondosos e incessantes aplausos, a comissão julgadora do aristocrático clube carioca decidiu por conceder a divisão do título entre os dois sambas, providenciando mais um prêmio de 500 mil réis, apesar de Herivelton Martins ter declarado anos depois que vencera “o bom crioulo Ataulfo com a sua Amélia e tudo”.
*Wander Lourenço de Oliveira, doutor em letras, é professor da Universidade Estácio e autor dos livros ‘Com licença, senhoritas (A prostituição no romance brasileiro do século 19)’ e de ‘O enigma Diadorim’.