Jornal do Brasil

Segunda-feira, 28 de Julho de 2014

País - Sociedade Aberta

Faça-se a luz... elétrica!

 Deonísio da Silva *

Quando chega a noite hoje no mundo, a luz pode ser trazida de volta para 79% da população mundial. Basta apertar um botão na parede.

 Nem sempre foi assim, naturalmente. Faz tanto tempo que temos este conforto que estranhamos a falta de luz por alguns segundos. Minutos ou horas, então, são uma tragédia. Aliás, não suportamos sequer falta de luz durante o dia. Tudo cai. A geladeira, o computador, o ar-condicionado, o telefone, o rádio, a televisão, o som etc. Somos dependentes eletroeletrônicos. Não é luz que falta, é energia, mas o povo diz que falta luz, mesmo de dia.

Antes da eletricidade, a luz não chegava aos pobres. Na Grécia e na Roma antigas, havia apenas poucas tochas acesas, em geral à entrada das casas. A escuridão habitava as ruas. O trabalho era de sol a sol. Quando a noite chegava, todos se recolhiam. Hoje, muitos vão para o trabalho quando ainda é escuro. E voltam para casa quando a escuridão retornou.

A virada começou no século 17. Era a primeira mudança decisiva desde a invenção das primeiras fogueiras, há cerca de 500 mil anos, e da descoberta dos óleos carburantes de vegetais e animais. Várias cidades europeias, entre as quais Paris e Londres, implantaram redes de iluminação pública com lampiões a óleo.

Os governos diziam que as luzes combatiam a criminalidade. Mas em 1689 o Senado português recusou a iluminação pública porque os criminosos enxergariam melhor suas vítimas. Lisboa seguiu Roma e Madri, e só foi iluminar as ruas nos fins do século 18.

A invenção da luz elétrica alterou mais a vida do homem nos dois últimos séculos do que em toda a sua história. Em 1820, ligando uma bateria a duas hastes de carvão mineral, o inglês Humprhy Davy fez com que um arco de 10 cm se inflamasse de luz, mas não encontraram aplicação prática para seu invento. Apenas em 1879, depois de décadas de pesquisas e experimentos, Thomas Alva Edison inventou a lâmpada incandescente e passou a comercializá-la.

Nos finais do século 19, a iluminação elétrica chegava ao Brasil. Campos dos Goytacazes tornou-se nossa primeira cidade a ter um serviço público de iluminação, em 1883. Outras cidades do interior do Brasil também precederam as capitais na iluminação das ruas.

         Os cabos elétricos chegaram com as lâmpadas e substituíram burros e cavalos nos bondes. Com a iluminação pública, as ruas ficaram menos inseguras. Cafés, bares e restaurantes passaram a atender também à noite. E a vida social e a cultural floresceram num ritmo alucinado.

A energia elétrica ajuda-nos a subir escadas, que agora são rolantes. Leva-nos de elevador às alturas de qualquer prédio. Imprime nossos escritos, roda nossos jornais e revistas, leva ao ar as ondas do rádio e as imagens da televisão.

Quando escurecia a maioria das pessoas ia para a cama. Para dormir ou para procriar. As famílias tinham muitos filhos devido a vários fatores, mas principalmente porque não havia o que fazer.

Hoje, a energia elétrica e a luz não nos deixam desocupados nunca! E já se fala em carro elétrico. Curitiba, sempre pioneira, já tem táxi elétrico.

A eletricidade trouxe também o terror com a cadeira elétrica. Ela foi utilizada pela primeira vez no estado de Nova York, em 6 de agosto de 1890. Até então os condenados à morte eram enforcados. William Kemmler, americano descendente de alemães, foi o primeiro a ser eletrocutado com 2.000 volts, por ter assassinado a noiva.

Muitas cenas macabras têm ocorrido durante as execuções. Nem sempre o condenado morreu com a primeira descarga. Nem com a segunda. Nem a terceira. Nem com as seguintes. A solução encontrada foi raspar a cabeça e embeber uma esponja em água com sal, colocada entre o eletrodo e o crânio, para aumentar a condutividade.

Cerca de 4.500 pessoas foram executadas na cadeira elétrica desde a sua introdução, substituindo a forca, por ser um meio mais humanitário. Os enforcados não morrem na hora. Muitos deles têm uma longa agonia.

Em 1978, a cadeira elétrica tornou-se uma opção para o condenado, não mais para o Estado, que a substituiu pela injeção letal.  

A eletricidade, inventada para trazer luz, também contribuiu para aumentar o terror. Assim caminha a Humanidade, como diz o filme famoso.

Deonísio da Silva,escritor e doutor em letras pela USP, é pró-reitor de Cultura e Extensão da Universidade Estácio de Sá e diretor de Relacionamento.  Seus livros são publicados no Brasil pela Editora Leya e Novo Século.

Tags: Artigo, sociedade aberta

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Comentários

1 comentário
  • Ricardo Oliveira, Rio de Janeiro

    Bem antes da utilização da eletricidade ( sim , utilização pois ela sempre existiu ) muitas pessoas já morriam com as descargas elétricas produzidas pelos raios. A cadeira elétrica é um extensão da guilhotina. A intento de matar, seja para punir os criminosos, não mudou com a utilização da eletricidade. As práticas selvagens da humanidade ganham novos contornos com a tecnologia, porém são as mesmas desde tempos sumerianos. Já com a tecnologia é diferente. Sua evolução não é linear, se dá por saltos. A lâmpada elétrica não é uma extensão tecnológica das lamparinas á óleos, são tecnologias completamente diferentes mas que produzem luz. Chegamos alua , porém os instintos selvagens ainda são so mesmos. Hoje, as fogueiras são virtuais.

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