Muito se questiona sobre as causas de tamanha barbárie social que se abate sobre nossa sociedade através da violência física, moral, insana, desumana, absurda que se observa nos ambientes da família, da escola, no trânsito, nas empresas etc. Quando havia o programa de televisão, mais de quinze anos passados, conhecido de todos, Você decide, num dos últimos programas, um deles me deixou perplexo. A história era de uma agência financeira de investimentos cujo diretor era protagonizado por Francisco Cuoco. Contracenava uma eficiente secretária, cujo marido estava em dificuldades financeiras por uma dívida de cem mil dólares num cassino clandestino, com ameaça de morte se não fosse paga até segunda-feira. Na sexta-feira anterior, a secretária confidencia com seu chefe a situação dramática por que estava passando. O diretor se penalizou, mas nada ofereceu no momento de ajuda. No dia seguinte, sábado, o mesmo telefonou que tinha solução para o marido dela. Mas deveria comparecer ao escritório, onde ela seria informada nesta oportunidade da solução, por questão de segurança, uma vez que nesse dia não há expediente. Diante da situação desesperada que ela estava vivenciando foi ao escritório no horário marcado.
Ao chegar, o diretor apresentou um envelope com o dinheiro que tinha tomado emprestado de amigos e clientes da agência, para salvar seu marido, e que ela não se preocupasse naquele momento com o pagamento. Ato contínuo, de forma elegante ele fez ver a ela que havia clientes com aplicações que não poderiam ser identificados por questões de impostos e mesmo dinheiro frio. Ou seja, ele pediu a ela, em troca, que permitisse usar seu nome e seu CPF para encobrir aqueles clientes.
Neste instante o programa é interrompido, e entra em cena o apresentador do programa na época Tony Ramos, com a fatídica pergunta: - Ela deve ou não deve aceitar a proposta? – Você decide!
Sendo um programa interativo, veio a resposta da votação: mais de 65%, se a memória não me trai, optaram pela decisão de aceitar a proposta. O próprio apresentador deixou visível sua perplexidade, diante desta resposta dos telespectadores. Em decorrência da decisão do público que seria no caso uma amostra de milhões de telespectadores, no bloco seguinte, por norma do programa, aparece a secretária, aceitando a proposta, com assinatura em todos os documentos (frios) e em seguida é festejado o evento com um coquetel regado a champanhas e muitos abraços de confraternização.
Por esta manifestação da sociedade brasileira – pode-se assim dizer pela amostragem estatística de milhões de telespectadores — senti que seria o começo de um período negro para todos nós. Por esta amostra não resta dúvida de que o brasileiro na época estava buscando a tragédia pela perda moral de seus cidadãos, e isso tudo termina nesta violência sem fim, que hoje estamos vivenciando.
Nada mais se pode estranhar com os escândalos diários, de desvios de verbas, falcatruas, sonegação, corrupção, conflitos contratuais de toda ordem etc. No modelo de democracia que temos hoje, é dramático dizer que os governantes são o espelho moral de seus próprios cidadãos. A votação dramática da Lei da Ficha Limpa de um ano atrás, deixando brechas e subterfúgios propositais para discussão e mais confusões futuras, é a confirmação do espírito de esperteza do povo brasileiro, cristalizado em seus legítimos representantes. Esta é a prova eloquente dos mais de 65% de brasileiros “exxperctos” no dizer de Alexandre Garcia.
A atual geração está pagando um preço caríssimo por esta cultura.
Sergio Sebold é economista e professor de pós-graduação do ICPG/Uniasselvi – Blumenau