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A paixão é cega

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        O mundo está apaixonado pelo Brasil. Uma paixão clássica, pois é cega. Nossa postura em relação a avanços nas reformas é igual às de Grécia, Portugal e Espanha, mas com clima de

euforia e confiança. O capital aqui investido é supostamente multiplicado, apesar das bolsas negativas e do vazio institucional. O Judiciário invade atribuições do Legislativo que a tudo assiste passivamente.

        Mas, se os países europeus estão em crise pelo endividamento publico excessivo, despesas fora da realidade, e por investimentos travados por leis trabalhistas generosas, o Brasil deveria tentar corrigir estes itens seguindo o exemplo de economias saudáveis como a alemã e a chilena. Mas nada é apresentado para melhorar nosso perfil legal, arcaico, fora do mundo da competição na busca de investimentos de fato.

        Procura-se ignorar que hoje o fator corrupção influi nos investimentos fixos. O dinheiro perambula pelo setor financeiro, de entrada e saída mais rápida, e sem trâmitesburocráticos que facilitam as “mordidas”, como os anglo-saxões se referem aos métodos tradicionais da América latina.

        Outra manifestação desta paixão passa por se ignorar os 400 bilhões necessários para a infra-estrutura indispensável ao escoamento da produção e a receber os eventos programados para 2014 e 2016. Temos seis meses de governo, com uma presidente bem avaliada, mas com uma equipe desentrosada e que não disse ainda a que veio em termos de trabalho. Até as ferrovias, ponto forte dos mandatos do presidente Lula, na área da logística está com atrasos. Aeroportos e o chamado trem-bala, sem uma definição de edital. Conter, através de uma reforma constitucional, os abusos do meio ambiente e do Ministério Publico em face de obras prioritárias como o PAC, nem passa pelas cogitações oficiais. Ibama, Funai, parecem acima do bem e do mal. Belo Monte é obra fundamental para o Brasil, e não existe segurança quanto ao licenciamento cheio de condicionantes, algumas  no limite do inviável.

            O sentimento antiempresarial de que falava Roberto Campos é presença cada vez maior no setor publico e até mesmo na sociedade. Agora mesmo, nas criticas ao governador do Rio, bem avaliado até agora, notadamente com as ações nas áreas da segurança pública e da inclusão das comunidades carentes através da UPPs, não faltou quem criticasse isenções fiscais para grandes investimentos, como se pudesse atrair capital de risco sem incentivos. Como o empreendedor é amigo do governador, não poderia ter incentivos fiscais. Ora, vamos devagar com o andor!

              A lucratividade das empresas, de um modo geral, se mantém positiva pelo esforço empresarial, mesmo com este cambio fora da realidade. Grupos organizados vivem tentando desmoralizar insitutições, governos, autoridades, mantendo o país em clima de tensão e as portas da revolta. O que mantém a paz entre os brasileiros é a estabilidade na economia e no emprego. Assim, esta onda de simpatia pelo Brasil vai  chegar ao seu limite. E a vida pública vai assustando cada vez os jovens idealistas, os homens realizadores. Corremos o risco de ficar nas mãos dos medíocres ou dos mal-intencionados.

             Tem de ter muita paixão para se investir em país com as nossas leis trabalhistas, carga fiscal, insegurança regulatória, sem mão de obra preparada, sem portos, aeroportos, estradas e os dramas da segurança pública e da corrupção descontrolada. O Brasil não pode confiar em um sentimento pouco racional dos mercados. Tem de ter fundamentos sérios, tem de merecer a confiança por motivos sólidos. O dinheiro que vem por modismo logo vai embora, e deixa como consequência a frustração.

Aristóteles Drummond é jornalista