Jornal do Brasil

Segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

País - Sociedade Aberta

A doença invisível

Gláucio Soares*

O médico Richard Besdine escreveu um pequeno artigo chamado Late-Life Depression: Coming Out of the Shadows no início do ano. A versão AOL do artigo começa perguntando se você pode resolver uma charada: o que é que afeta um em cada cinco americanos, aumenta o risco de morte e de incapacitação e duplica seus gastos com a saúde?

Muitos pensam em câncer ou doenças do coração, mas a resposta é dupla: depressão e coração. Essas duas doenças têm muito em comum: 

• Muitas vezes não são notadas e, com menor freqüência são  diagnosticadas;

• Com menor freqüência ainda, são tratadas;

• Essas deficiências na detecção e tratamento são ainda mais graves entre os idosos.

O pior inimigo das pessoas com depressão é tanto cognitivo quanto atitudinal. A maioria dos brasileiros não sabe o que é depressão. Outra grande ameaça vem da “normalização”, de achar que é normal que idosos e/ou doentes estejam deprimidos.

Esta incompreensão do que é depressão, do que é doença e do que são a Terceira e a Quarta idades permite muito sofrimento e muitas mortes, além do absolutamente inevitável. Os brasileiros poderiam sofrer e morrer menos.

Não há dúvida de que alguns aspectos da velhice, como o aumento das doenças crônicas, a morte (com efeito cumulativo) de parentes e amigos, e o crescente número de atividades que não podem mais ser feitas levam muitos a achar que é normal que os “velhos” sejam deprimidos.

Mas, olha a surpresa: pessoas mais jovens sofrem de depressão com maior freqüência e intensidade do que os idosos. E, acredite ou não, os idosos desenvolveram maneiras mais numerosas e eficientes de lidar com problemas que poderiam causar depressão. Um dado: a pobreza pode multiplicar a depressão tanto em idosos quanto na população jovem e adulta.

O que provoca a depressão? Uma surpresa: pesquisadores na Washington University School of Medicine em St. Louis e no King's College em Londres chegaram à mesma conclusão: geneticamente, há uma combinação no DNA no cromossoma 3 associado com a depressão. 

Uma de cada cinco pessoas padece de depressão séria na vida. O que diferencia a que padece das outras quatro? A análise da família revelou um histórico de depressão em muitos dos que enfrentaram essa doença, mas em poucos dos que não a enfrentaram. Há uma região no DNA com noventa genes onde parece que essa predisposição se origina. 

Mas, cuidado: muitos com predisposição genética não se deprimem e alguns sem ela ficam deprimidos. Não são populações “determinadas” pela genética a ter ou a não ter a depressão. Esses dois artigos acabam de ser publicados no American Journal of Psychiatry.

A “normalização” da depressão mata muita gente, não apenas através do suicídio, talvez a primeira causa que venha à cabeça de muita gente, não é a mais importante. Quem teve um ataque cardíaco e sofre com uma depressão tem um risco de morte quatro vezes maior do que os que também tiveram um ataque cardíaco, mas não sofrem (ou sofreram e já controlaram) de uma depressão. Quatro vezes, 400%, não é pouco. 

E há custos: no Brasil, os pobres que padecem de depressão raramente são tratados e sofrem e morrem como moscas. Nos Estados Unidos, onde uma proporção mais elevada recebe tratamento, o custo da depressão anda beirando os cem bilhões de dólares por ano – bilhões mesmo, não milhões. O equivalente à soma do PIB da Bolívia, do Equador e do Paraguai!!!

É melhor começar a enxergar.

* Cientista político (Iesp/Uerj)

Tags: Artigo, depressão, glaucio soares

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Comentários

6 comentários
  • Marysa, Teresina

    Discordo da afirmativa "Os pobres que padecem de depressão raramente são tratados". Os CAPS atualmente são dispositivos que atendem tais demandas,e seus usuários em sua maioria são pessoas de baixo poder aquisitivo.Em casos de depressão menos graves, são encaminhadas para atendimento ambulatorial e devem também ser acompanhadas pelo PSF. Ainda há muito a ser feito, claro, mas os recursos para tratamento existem sim!

  • p, Serra - ES

    Só existem! São ínfimos e somente para inglês ver, assim como a saúde de modo geral no Brasil. E também a educação, segurança, etc etc etc. É um modo do governo afirmar que faz, mas deixa um universo de pessoas fora do sistema. Isso é chamado de hipocrisia, falsidade, duas caras, etc etc etc.

  • João Maria Soares de Lima, rio de janeiro

    Boa, p, Serra!
    A realidade é como voce se expressou.
    Nenhum governo preocupa-se com saúde para a população; todos venderam suas almas para as Operadoras de Planos de Saúde.

  • Jozemar , Rio de Janeiro

    Caso a saúde pública no Brasil venha a funcionar, como sobreviverá as operadoras de planos de saúde de teem como "guardiões" um elevado número de políticos em suas folhas de pró-labore, e como outro tanto de políticos arregimentará eleitores com o fechamento de centros de atendimentos em seus currais eleitorais. Hospitais federais, estaduais e municipais nada funciona a contento, não é estranho ?

  • Alfredo Tadeu Pires de Oliveira, São Roque - SP -

    Gostei da matéria. Sou paciente de depressão há mais de onze anos. Está é uma doença maldita e os seres humanos ainda são carregados de preconceito a respeito de pessoas que buscam tratamento com médicos especializados - psiquiatras - já conheci vários. Em nosso País, assim como nos EUA, também de certa forma criminalizaram a doença mental, quando fizeram a malfadada Reforma Psiquiátrica. Hoje realizo um trabalho com escritor e faço minha narrativa autobiográfica através de um blog, ao qual é denominado "Depressão, efeito e a vida." - alfredotadeu.blogspot.com - o estou realizando com o objetivo de ajudar pessoas a entenderem a doença invisível, que não somente afeta a pessoa em si, como tudo a sua volta. Também, para chamar a atenção dos homens, visto que estes demoraram e muito para buscar ajuda profissional - foi o meu caso.

  • TITO, psicólogo, jauzeiro do norte, ce

    Afirmar que os CAPS funcionam e que tem recursos para a Saúde Mental é algo bem diferente dos registros das filas dos hospitais, das neglicências nos atendimentos, das omissões de governos (mais interessados em Copa do Mundo) doque nos porques a população brasileira está tão dependente e viciada de medicação, etc..etc..etc...
    Depressão, Drogadição, Dependência Medicamentosa, Gravidez precoce entre os 'teens', Prostituição infanto-juvenil, Tráficos dos mais diversos (inclusive os políticos), entre outros mais itens...tudo tem a ver com uma doênça invisível chamada "miopia brasileira" que leva muitos a acreditarem que ainda tem recursos, que tal procedimento/órgão funciona, etc..etc..
    Lamentável.
    Ao autor da matéria, parabenizo, pois reflete ser parte de uma pequena minoria que enxerga além das aparências pallocianas.

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