Jornal do Brasil

Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

País - Sociedade Aberta

UPP: Unidade de Polícia Pacificadora ou um projeto de poder?

Jornal do BrasilLeonardo Martins*

Tenho acompanhado de perto a relação entra as UPPs e as comunidades que por elas são “atendidas”, o que possibilitou fazer uma leitura do que acontece e do que vai acontecer.

Primeiro gostaria de dizer que as UPPs estão fadadas ao fracasso. Após ouvir algumas teorias, que respeito muito, sobre as UPPs estarem sendo implementadas num “cinturão” privilegiado, visando a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016, apesar de terem uma certa razão, acho sinceramente que o buraco é muito mais embaixo do que parece.

O primeiro passo de implementação da Unidade de Polícia Pacificadora é o anúncio acerca da Comunidade que será “pacificada”. Apesar de encontrar vozes contrárias a esta forma de atuação, acho que está perfeita, por evitar confrontos desnecessários, com possíveis balas perdidas e, muito provavelmente, banho de sangue. Ponto para SSP.

O passo seguinte deveria ser a criação de uma polícia comunitária autônoma da Polícia Militar, que trabalharia nas comunidades pacificadas em sistemas de rodízio – a cada 6 meses os integrantes trocariam de comunidades – minimizando, desta forma, possíveis “milícias”. Este ponto específico tratarei em um próximo artigo.

Mas o projeto não é esse. As UPPs são, antes de tudo, um projeto de poder, de controle de um espaço tradicionalmente submetido à opressão. Os novos Capitães, que comandam as UPPs são os novos “donos do pedaço”, em substituição aos traficantes que ali se encontravam. Autorizam bailes, mandam baixar o som dos moradores, escolhem as músicas que os moradores podem escutar, determinam horário e condutas pessoais, intimam e intimidam àqueles que tem uma opinião mais crítica acerca da função da polícia, como por exemplo o fechamento da rádio comunitária do Andaraí, pela Polícia Federal, sobre o pretexto de rádio pirata e atrapalhar o tráfego aéreo.

Nesse compasso, para o êxito do projeto, há apenas um entrave: a Associação de Moradores. Um arremedo de solução começou com a tentativa de associar os presidentes das Associações de Moradores ao tráfico de drogas, como ocorreu com Laéria Meirelles, presidente da Associação de Moradores do Morro da Formiga, que foi presa sob esta acusação. A partir da prisão da Laéria, alguns presidentes, quando se opunham às ordens dos Capitães, como me foi relatado, ouviam a seguinte “recomendação”: cuidado, presidente, lembra do que aconteceu com a Laéria? Infelizmente, alguns presidentes foram cooptados, seja por medo, seja por qualquer outro motivo, não oferecendo nenhuma resistência. Até quando?

Ainda na esteira de “comandar” também a associação de moradores, numa tentativa de acabar com oposições às políticas e críticas ao Governo, as UPPs informaram que vão organizar as eleições para as Associações de Moradores[1]. Embora pareça e, na minha opinião é, um golpe, ainda não garante o domínio absoluto do território, uma vez que o eleito pode não ser o da base governista ou pode mudar de lado.

Percebendo a fragilidade desta relação, o governo do Estado criou então a UPP Social, transferido para a Prefeitura, que consiste na criação de núcleos, um em cada comunidade, como uma “frente de trabalho”, para pesquisar às demandas necessárias às comunidades, fazendo a intercessão com as agências de serviços públicos e trazendo respostas às demandas. Cada núcleo, ou seja, cada comunidade, terá um”Gerente”, que é um funcionário do governo, no caso da Prefeitura, que será o novo responsável pelo articulação comunidade-demanda por serviços públicos.

Este trabalho tem como finalidade o esvaziamento das Associações de Moradores, usurpando as suas funções, deslegitimando suas lideranças e colocando em xeque a sua existência.

Assim, a comunidade, que já está tomada pelo poder armado do Estado, fica também controlada politicamente. O que significa tudo isso? Para que o Governo arquitetaria um plano tão maquiavélico? A troco de que? A resposta é a mesma encontrada pela CPI das milícias e divulgada pelo filme Tropa de Elite 2: dinheiro e, principalmente, voto. As UPPs, são milícias institucionalizadas pelo Estado, aceitas pela grande mídia e pela “sociedade”. As UPPs são, antes de mais nada, Um Projeto de Poder.

*Advogado, especialista em Segurança Pública, pós-graduando em Sociologia Urbana

Tags: Artigo, leonardo martins, upp

Comentários

3 comentários
  • luiz carlos, Jaboatão dos guararpes
    luiz carlos, Jaboatão dos guararpes

    Primeiro acho que poder sempre estará nas relações dos homens, o Sr como jornalista usa poder da mídia para impor sua forma de ver o assunto, mais não viveu e viverá em uma comunidade dominda pelo tráfico. Pessoas sem direito de ver suas filhas escolherem seus namorados, sendo imposto por viciado o destino de suas vidas.
    Antes de criticarmos esta iniciativa das UPP deveremos tentarmos lutar para esta idéia dar certo.

  • Alder Oliveira de  Lima  e Silva, Rio de Janeiro
    Alder Oliveira de Lima e Silva, Rio de Janeiro

    Então tá! E qual a solução que o articulista tem para resolver ou minorar os problemas das favelas, de imediato?

  • Eduardo Souto Jorge, Nova Friburgo-RJ
    Eduardo Souto Jorge, Nova Friburgo-RJ

    Impressionante como estes "intelectualoides", principalmente sociologos e jornalistas(?), sao egoistas. Querem sempre estar com a verdade absoluta e as favas a realidade. O Estado e' o poder que o voto democratico(ou sera so' democratico quando sao eleitos os "amiguinhos"?)confere . nao existe nenhum paralelo real entre o poder do trafico e o Governo eleito. Arrume suas malas e va morar na Rocinha, na Vila K ou na Mangueira por no minimo 5 anos. Depois volte se estiver vivo.

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