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É tempo!

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        Na sociedade midiática aparentemente só há percepções dominantes, tão efêmeras quanto os interesses que as manipulam. Uma sociedade que só sente a sua unidade na sucessão de imagens dela própria enviadas semanalmente pela mídia. Fragmentação de imagens e assuntos, simplificação das percepções: ou se fala, ou não se fala, eis o mais importante e muitas vezes o único critério, pois um assunto do qual não se fala não existe.

        A mídia está muito longe de realizar as promessa de democratização da cultura, que assim pouco influi sobre os valores, as atitudes, os comportamentos dos indivíduos. O poder da mídia hoje coincide com uma efetiva capacidade de imposição de modelos que, por não serem obrigatórios, não deixam de ter menos eficácia. Doravante é a informação que toma o lugar da cultura, é ela que produz os efeitos culturais mais significativos, ainda que segundo um quadro simples, direto.

        A informação tem a particularidade de individualizar as consciências. E isso não apenas por intermédio das atualidades cotidianas, mas sobretudo e especialmente pelo ângulo das intervenções, pontuais, efetuadas por  especialistas, explicando de maneira simples e direta ao público o último estado das questões. Já não há hoje uma única questão que não seja objeto de informações, de análises, de discussões. Qualquer que seja o leque de escolhas, os mesmos grandes temas serão tratados, as mesmas informações essenciais serão difundidas.

        Transmitindo permanentemente as informações mais variadas sobre a vida em sociedade - da política à sexualidade, da medicina às inovações tecnológicas, da estética ao esporte, da economia à psicologia, das grandes apresentações de música ao teatro -, a mídia tornou-se um formidável instrumento para integrar os indivíduos. Na moderna sociedade democrática, a informação não cessa de reduzir o impacto das ambições doutrinárias, propaga a recusa a visões totalizantes do mundo.

        O indivíduo quer soluções eficazes e técnicas para os diversos problemas e questões que se referem à vida cotidiana prática; há mais exigência de saberes e de informações operacionais. Não dispondo mais de saberes fixos, tradicionais, os indivíduos são levados a diversas direções conforme as informações que recebem. O que é recebido pelo público não são apenas receitas, é a multiplicidade das abordagens dos pontos de vista.

        Hoje em dia, a informação dissolve a força das convicções,  e torna os indivíduos permeáveis, prontos a abandonar sem constrangimento suas opiniões, seus sistemas de referência, a passar a uma velocidade de experimentação social mais rápida. É tempo de devolver aos conteúdos veiculados pela mídia o papel que é deles nas transformações culturais de nossa época, o que decerto levará os indivíduos a agir como protagonistas num mundo onde o controle das grandes decisões lhes escapam.

* Engenheiro