Jornal do Brasil

Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018 Fundado em 1891

Rio

Nem foi preciso chamar a Márcia: Crivella se livra de processo de impeachment na Câmara

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON, rogerio.daflon@jb.com.br

Com o quórum de 47 de 51 vereadores presentes, e de 29 votos contra a abertura ante 16 a favor, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) se livrou de um processo de impeachment na Câmara dos Vereadores. Para a maioria dos parlamentares, não houve irregularidades na recepção de Crivella a pastores e membros de igrejas evangélicas no Palácio da Cidade, na semana passada, quando o prefeito conclamou os convidados a procurarem seus assessores diretos, entre os quais, Márcia, para obter benefícios a seus fiéis, como cirurgias de catarata e isenção de IPTU.

O painel exibe o resultado da votação: como era autor do pedido,o vereador Átila Nunes não teve direito a voto

Na terça-feira, a oposição obteve 17 assinaturas, equivalente a um terço do total de vereadores e à fração mínima exigida para a convocação de sessões extraordinárias durante o recesso parlamentar, iniciado em 4 de julho. Um dos signatários, o vereador Professor Adalmir (PSDB), mudou de opinião e votou com a base aliada a Crivella. Houve dois pedidos de impeachment contra Crivella protocolados na Câmara: um, apresentado pelo vereador Átila Alexandre Nunes (MDB); e outro, pela presidente do PSOL, Isabel Lessa, com o deputado estadual psolista Marcelo Freixo — ambos associaram a reunião do prefeito com pastores e religiosos à improbidade administrativa.

Dentro e fora do Palácio Pedro Ernesto, o clima foi tenso entre os dois grupos de manifestantes que se formaram, em favor pró e contra Crivella. Pastores e líderes comunitários levaram seguidores para defender o prefeito, enquanto sindicatos de profissionais de educação e assessores de vereadores de oposição arregimentaram simpatizantes à causa do impeachment. Pastor do Assembleia de Deus — e não da Igreja Universal, da qual Crivella é um dos líderes religiosos —, Rubens Teixeira foi visto nas escadarias da Câmara gritando palavras de ordem a favor de Crivella. Opositores gritavam “Vergonha!”. Seguranças intervieram para acalmar os ânimos.

Protesto nas galerias

Embalados pela plateia, parlamentares como Paulo Pinheiro (PSOL) também falavam com ênfase contra o prefeito. “Trata-se de um crime contra a saúde pública e contra seu próprio governo”, disse Pinheiro, referindo-se às supostas vantagens na fila de cirurgia de cataratas, prometidas pelo prefeito na reunião com os pastores. Crivella, por sua vez, foi defendido por outros vereadores, como Jairinho (MDB), líder do governo na Casa:“Ele foi eleito legitimamente”. Tania Bastos (PRB) dizia que, por trás dos pedidos de impeachment, havia interesses eleitorais. “A quem interessa desestabilizar o governo municipal a três meses de uma eleição?”, indagou ela. 

Um dos momentos de tensão foi protagonizado pelos vereadores David Miranda (PSOL) e Otoni de Paula (PSC), este da base de Crivella. Ao terminar sua fala, Otoni se dirigiu ao grupo contrário a Crivella que estava na galeria. Miranda então pediu a palavra e chamou Otoni de hipócrita. Em resposta, o parlamentar do PSC fez uma dancinha ironizando Miranda, ativista pelos direitos dos homossexuais, que entendeu o gesto como homofóbico. Prometeu processar Otoni. Aos repórteres no fim da sessão, Otoni disse que Miranda deu um “piti gay”, assim como ele também deu um “piti hétero”. Afirmou também que seu gesto não foi homofóbico.

Fato é que a oposição não digeriu bem a derrota no plenário e, agora, aposta na atuação do Ministério Público estadual. Tarcisio Motta disse que o MP deve dar continuidade às investigações, a despeito da não admissibilidade do impeachment. “Ocorreu um crime eleitoral, já que no próprio convite no WhatsApp os nomes de dois pré-candidatos foram citados (Rubens Teixeira e Rafael Leandro). Nele, havia a seguinte frase: ‘Convite de nosso amado e querido prefeito Marcelo Crivella e dos pré-candidatos Rubens Teixeira e Raphael Leandro’. E esse evento com pré-candidatos teve como lugar o Palácio da Cidade, ou seja, uso de recursos públicos para promover candidaturas. A campanha extemporânea é um crime”, acusou o vereador do PSOL. O Ministério Público estadual pode encaminhar, quando terminar a investigação sobre o encontro, um pedido de impeachment à Câmara e ao Tribunal de Justiça. “Aquela reunião e suas consequências não terminaram hoje (ontem) com a não admissibilidade do impeachment do prefeito. Há todo um processo na Justiça”, disse Tarcísio Motta.

O clima quente entre manifestantes a favor e contra o prefeito do Rio

Novos embates à vista 

A vitória de Crivella, ontem, no plenário da Câmara indica que a oposição terá de ser ainda mais articulada e acirrada daqui para a frente, se quiser derrubar as polêmicas propostas que tramitam na Casa e que são de interesse do prefeito do Rio, como os projetos de lei que modificam a Lei de Uso e Ocupação do Solo e o Código de Obras. São matérias que merecem amplo debate, por trazer impactos profundos no planejamento e na estrutura da cidade para os próximos anos



Tags: crivella, denúncia, impeachment, política, rio

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