Jornal do Brasil

Terça-feira, 17 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Rio

Sociólogo conta como os milicianos chegaram ao Rio

José Cláudio Souza Alves se dedica ao estudo de grupos paramilitares

Jornal do Brasil ROGÉRIO DAFLON rogerio.daflon@jb.com.br

Professor de Sociologia da Universidade Federal Rutal do Rio de Janeiro, José Cláudio Souza Alves traz, nesta entrevista, uma visão histórica e metropolitana do fenômeno da formação da milícia no Rio de Janeiro. Para ele, não dá para fazer qualquer análise séria da questão sem que se perceba que esse segmento do crime organizado se conecta, desde o seu nascedouro, com os grupos de extermínio da Baixada Fluminense e com o tráfico de drogas na capital. Autor de livros sobre violência urbana, o professor diz que o carioca que dá as costas para as cidades vizinhas jamais vai compreender o tamanho do problema e do perigo.

Professor diz que carioca que dá as costas para cidades vizinhas jamais vai compreender o problema

Que fatos históricos são centrais para se entender o fenômeno da milícia?

Talvez o fato mais antigo relacionado à questão da milícia tenha sido um grande saque ocorrido na Baixada Fluminense no dia 5 de julho de 1962, quando as grandes confederações e centrais de trabalhadores fizeram uma greve contra o governo João Goulart, contestando a indicação que ele fizera para primeiro-ministro, o Francisco Brochado da Rocha, no breve período em que o parlamentarismo vigorou no país. Nesse dia, os trabalhadores se aglutinaram na Praça do Pacificador, em Duque de Caxias. Parte dessa população concentrada saqueou dois mil estabelecimentos comerciais, numa ação que chegou a outros municípios, como São João de Meriti e Nova Iguaçu. No total 42 pessoas morreram, e mais de 700 ficaram feridas. Naquele momento, em Caxias, um grupo de jovens de classe média pegou em armas para proteger os comerciantes dos saqueadores. Esse foi o primeiro fenômeno que chama atenção pelo uso da violência de forma privada para proteção de determinados grupos.

Como esse processo evoluiu?

 Posteriormente, a Associação Comercial e Industrial de Duque de Caxias se reuniu com um interlocutor do então governador do estado,  Celso Peçanha, a fim de propor doar o salário, a viatura e o espaço físico para a polícia proteger os interesses deles na cidade. Embora a ideia não tenha ido à frente, ela soa como uma lógica que moveria os grupos de extermínio no fim dos anos 1960. E mostra uma apropriação privada do setor público a partir dos interesses de certos grupos. Trata-se do nascedouro desse modelo de milícia. As mortes que vão despontar nos anos 1970 são de pessoas encontradas nas áreas de desova e remotas da Baixada Fluminense, com marcas de algemas e em trajes sumários. Essas pessoas vinham de celas de delegacias e batalhões, e as investigações vão identificar a participação direta do aparelho policial militar e policial civil nesses assassinatos. 

Os ganhos eram obtidos como pelos grupos de extermínio?

Eles tinham em sua base três elementos: quem matava eram os agentes de segurança do Estado; quem financiava eram empresários e comerciantes da região; e quem dava o suporte era a conjuntura da ditadura civil-militar. Hoje a milícia conta com esse financiamento, essa presença dos agentes do Estado e o suporte político de quem detém o poder no Rio e fora do Rio também. Há uma similaridade entre o que foram os esquadrões da  morte e o que são atualmente as milícias. Naquela época, o grande mercado era sustentado pela execução sumária e agora a milícia tem todo um outro perfil de inovação e outros braços de negócios. 

Esses matadores ascendem à política de que maneira?

Os grupos de extermínio, com o passar do tempo, vão ganhando novos moldes. Nos anos 1980, já não são só os policiais militares e agentes de segurança que estão matando. Há a entrada de civis matando. Esses civis, que então se organizam em grupos de extermínio, passam a penetrar mais profundamente na sociedade, a partir do momento em que eles podem ser eleitos, o que policiais militares, policiais civis e agentes de segurança não podiam ser. Nos anos 1990, alguns desses matadores se elegeram vereadores e prefeitos na Baixada, e deputados estaduais. Tudo isso, inserido nos anos 1970, 1980 e 1990, é, digamos, a contribuição do espaço da Baixada para consolidar uma lógica de execução sumária, por dentro do estado e com respaldo político e econômico, intensificando-se cada vez mais. 

O que ocorre na capital paralelo a esse processo na Baixada? 

O Rio de Janeiro, que sempre teve contato com a Baixada, tem uma originalidade na sua lógica da violência. Os grupos do extermínios do Rio não chegaram ao poder político, como na Baixada O que ocorre na capital, a partir do fim dos anos 1970 e sobretudo nos anos 1980, é a criação das grandes facções do tráfico de drogas. Há uma repartição, na disputa espacial, das favelas e das áreas pobres do Rio. Desde esse momento, há uma relação direta da polícia com esses grupos. Isso com uma movimentação financeira muito alta, consolidando-se cada vez mais ao longo do tempo. Nos anos 1990, então, nós vamos assistir a grandes chacinas no Rio de Janeiro. De maneira geral, elas vão acontecer em função da relação de propina entre as facções do tráfico de droga e a polícia no Rio de Janeiro.  O maior exemplo é a chacina de Vigário Geral, em 29 de agosto de 1993. Houve naquele ano o suborno que a polícia pegou um dia antes daquela chacina, quando quatro policiais foram executados pelo líder do Comando Vermelho, Flávio Negão. E há, enfim, uma ação em forma de vingança perpetrada por policiais militares pela qual 21 pessoas são mortas na comunidade. Esses policiais integravam um grupo de extermínio chamado Cavalos Corredores. Tudo isso em função de um conflito de interesses entre Comando Vermelho e policiais militares, que, por sua vez, faziam todo um trabalho de acompanhamento e negociação da entrada da droga, venda de armas, segurança de comboios, para que os traficantes pudessem atravessar algumas áreas. Todos esses crimes da polícia foram descobertos pelas investigações. Ou seja, uma década depois de a Baixada consolidar os grupos de extermínio, o Rio entrou na lógica da relação da polícia com o tráfico de drogas. Assim, a polícia passou a compreender o domínio das áreas por parte das facções, como elas atuam, os interesses delas, a geopolítica dessas disputas. A polícia então passou a fazer ações como receber dinheiro para matar membros de outra facção para favorecer a facção que paga; sequestrar líderes do tráfico para exigir resgate e ganhar dinheiro com isso; fazer o funcionamento da venda da droga a partir do arrego e do suborno — só para dar alguns exemplos. Toda essa logística vai ganhando corpo ao longo dos anos 1980 e 1990.

Como capital e Baixada ajudam a compreender a milícia?  

A partir dessa experiência acumulada no Rio de Janeiro e do know-how adquirido na Baixada Fluminense, é que se deve contextualizar o surgimento das milícias em Rio das Pedras. É uma espécie de superação desses dois modelos. Rio das Pedras nos fala de comerciantes que financiam um grupo de policiais civis e militares para proteger aquela comunidade contra a entrada do tráfico. Começou-se a ter aí uma fusão de elementos. Já estamos nos meados dos anos 1990. A partir deste momento, experiências similares a essa passam a ocorrer em outros lugares da metrópole. Temos, assim, exemplos de milícias surgindo quase simultaneamente na Zona Oeste do Rio e na Baixada. Trata-se de uma grande rede na Região Metropolitana então tomando forma.  Hoje, temos um novo modelo. 

E qual é esse modelo? 

Alguns civis, sempre próximos de agentes de segurança do estado, vão se transformar em lideranças de ocupações urbanas nessas periferias, tanto na Zona Oeste como na Baixada. E essas lideranças vão saber trabalhar muito bem na distribuição de terras, na obtenção de água e de luz elétrica e até mesmo de equipamentos urbanos. E isso vai ser revertido na forma de votos e eleições dessas lideranças. Essas lideranças já trazem consigo a lógica de controle territorial, além do discurso da segurança e da proteção em relação ao tráfico de drogas. Essa rede está imbricada no Estado. E, em relação aos negócios, há uma ampliação na comparação com o modelo anterior. Outra fator: o tráfico deixa de ser o grande inimigo. Já há um conhecimento da polícia das áreas controladas pelo tráfico. Há milicianos que vão fazer alianças com tráfico para expandir seu território. 



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