Jornal do Brasil

Sexta-feira, 20 de Abril de 2018 Fundado em 1891

Rio

Execução de Marielle chega à ONU

Jornal do Brasil MARCELO AULER 

Hoje, em Genebra, na Suíça, os representantes diplomáticos de todas as nações com assento na 37ª Seção do Conselho de Direitos Humanos da ONU tomarão conhecimento das denúncias relacionadas à execução da vereadora carioca Marielle Franco. 

Estarão em um documento endossado por mais de 60 ONGs e entidades defensoras dos Direitos Humanos, de diversas nacionalidades. Associarão o assassinato da vereadora e defensora dos direitos humanos à intervenção militar promovida pelo governo brasileiro no Rio de Janeiro. 

O crime é inserido em um contexto de perseguição existente no país aos defensores dos direitos humanos. 

“O mandato parlamentar de Marielle centrou-se no racismo estrutural e na violência policial sofrida pelos pobres, negros e jovens nas favelas e no empoderamento de mulheres negras e da comunidade LGBTI”, diz o texto, a ser lido ao meio-dia de hoje, em Genebra (8h em Brasília). 

Marielle: defesa de minorias e contra violência em favelas

“Muitos que falam a verdade ao poder no Brasil enfrentam violência e estigmatização sem precedentes, já que o país está no topo das mortes dos defensores (dos direitos humanos)”, ressalta o documento. 

Paralelamente, nos bastidores da reunião do Conselho dos Direitos Humanos da ONU, uma carta denunciando a situação de risco de ativistas leigos em comunidades carentes brasileiras, incluindo a Favela de Acari, que Marielle também denunciou, circula entre alguns conselheiros. 

A carta foi encaminhada ao Relator Especial da própria ONU sobre a situação de defensores e defensoras dos Direitos Humanos, Michel Forst.

Houve até uma tentativa de se levar à Genebra a jovem Buba Aguiar, que, como o JORNAL DO BRASIL noticiou na edição de ontem, viu-se obrigada, junto com outros 14 adolescentes, a deixar a região em que residem com medo de se tornarem a “bola da vez”. 

Por falta de passaporte, Buba não pode ir a Genebra. O caso dela e de seus companheiros de Acari, porém, ainda não será tratado publicamente. 

Na reunião de hoje serão pedidas garantias à com panheira de Marielle, assim como para sua assessora, que estava no carro e conseguiu escapar dos disparos que vitimaram a vereadora e seu motorista, Anderson Gomes. 

Para evitar que diplomatas brasileiros tentassem interferir para evitar a leitura das denúncias contra o Brasil, por conta do assassinato de Marielle, as entidades defensoras dos Direitos Humanos mantiveram o documento em sigilo. O documento, porém, foi adiantado em confiança ao JORNAL DO BRASIL. 

Nele, denuncia-se também que o governo brasileiro vem cortando verbas destinadas aos programas de proteção aos defensores de Direitos Humanos, os quais, segundo a denúncia, se encontram “subfinanciados” e com valores “insuficientes”. 

Havia, por parte dos representantes brasileiros junto ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, promessa de revisão dessas verbas, com a ampliação dos programas de proteção às pessoas perseguidas. Mas foram apenas promessas, jamais cumpridas. 

A ÍNTEGRA DO DOCUMENTO PARA O CONSELHO DA ONU

Conselho de Direitos Humanos - 37º Período Ordinário de Sessões - Item 8 - Acompanhamento e implementação da Declaração de Viena sobre os Direitos Humanos Declaração conjunta de [....] *  

Sr. presidente, 

A proteção efetiva dos defensores dos direitos humanos é essencial para a implementação doméstica da Declaração de Viena. 

A vereadora municipal Marielle Franco e seu piloto, Anderson Gomes, foram brutalmente executados no dia 14 de março no Rio de Janeiro, Brasil. O mandato parlamentar de Marielle centrou-se no racismo estrutural e na violência policial sofrida pelos pobres, negros e jovens nas favelas e no empoderamento de mulheres negras e da comunidade LGBTI. 

Este ataque brutal ocorre no contexto de uma intervenção federal altamente militarizada no Estado do Rio, decretada pelo Presidente, contrários à vontade das comunidades locais. De fato, as preocupações sobre a intervenção foram destacadas pelo Alto Comissário em sua declaração durante esta sessão. 

Muitos que falam a verdade ao poder no Brasil enfrentam violência e estigmatização sem precedentes, já que o país está no topo das mortes dos defensores. Marielle e Anderson foram mortos a tiros no carro, retornando de uma rodada de debate com mulheres negras. Marielle foi nomeada relatora de um comitê parlamentar para supervisionar os abusos da ação militar no Rio. O programa de proteção dos defensores permanece subfinanciado e insuficiente. 

A força, o engajamento e o espírito de sororidade de Marielle devem servir de fonte de inspiração para o trabalho necessário para a promoção e proteção dos direitos humanos, em particular para os grupos mais marginalizados.

Instamos o governo brasileiro a assegurar uma investigação imediata, imparcial e independente, processando os responsáveis materias e intelectuais deste crime, com a competência e a abertura para a possibilidade de o assassinato te sido uma execução extrajudicial. Também instamos as autoridades a dar proteção efetiva aos sobreviventes desse ataque, como testemunhas-chave desta atrocidade. 

Obrigado”.



Tags: ação, marielle, morte, nações, unidas

Compartilhe: