Jornal do Brasil

Domingo, 22 de Julho de 2018 Fundado em 1891

Rio

‘Ditadura que extermina o povo negro, favelado’

Jornal do Brasil Marcelo Auler

Receosos de se tornarem a chamada “bola da vez”, 14 jovens moradores de Acari deixaram a favela onde sempre residiram. Entre eles, a estudante de Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Buba Aguiar, de 23 anos. 

Temem se tornar a nova Marielle Franco, a vereadora do PSOL executada com quatro tiros na cabeça, no Estácio, na quarta-feira, dia 14.

Certamente, o assassinato da vereadora Marielle não foi causado exclusivamente por uma denúncia que ela tenha feito, mas pelo chamado conjunto de sua obra na defesa dos Direitos Humanos, que incomodava muita gente. 

Mas, tal como Marielle, esses jovens há muito denunciam as atrocidades cometidas por policiais militares do 41º BPM dentro de Acari, bairro na Zona Norte do Rio. 

O mais grave é que essas suas denúncias não encontram eco junto às autoridades responsáveis pela chamada intervenção federal militar no Rio de Janeiro. 

Buba Aguiar, de 23 anos, moradora da Favela de Acari, afirma estar acuada pela violência policial e, por isso, após a execução de Marielle Franco, decidiu abandonar a comunidade onde vivia 

Antes, pelo contrário, enquanto assistem ao Exército, como definiu o próprio general chefe da intervenção, Braga Netto, fazer das comunidades da Zona Oeste – notadamente a Vila Kennedy – palco de suas “experiências”, os moradores de Acari sentiram na pele o recrudescimento da ação dos policiais militares, seus velhos algozes. 

“A impressão que nos dá é que, com a intervenção, os policiais estão se sentindo muito mais à vontade. Sempre se sentiram, mas agora estão se sentindo muito mais à vontade para fazer o que estão fazendo”, denunciou Buba, em um vídeo gravado dia 11 de março, para o site “Ponte Jornalismo”. 

As denúncias dela prosseguiram em um debate realizado na noite do dia 12, no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, do qual participaram ainda o ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão e o psicanalista e professor da Universidade Federal do Estado de São Paulo (Unifesp) Tales Ab’Sáber. Tudo devidamente registrado na página do Facebook  “Precisamos agir e falar contra o fascismo”. Nesse debate, de forma didática, Buba demonstrou por que as comunidades carentes temem intervenções militares e operações policiais. Citou o que vivenciou em um sábado: 

“Eu saí com uma moradora para buscar doações, porque Acari foi uma das favelas atingidas pela última enchente. A polícia estava entrando, a gente foi pelo cantinho das ruas. Começamos a ouvir tiros. Olhamos para trás, não tinha nenhum “bandido” atrás da gente. Ou seja, eles estavam atirando na nossa direção. Portanto, você é pobre, você é negro, você é favelado e você ainda ousa bater de frente com o Estado, você está muito ferrado. Está muito ferrado”. 

Em outro momento, conta ter sido presa por policiais militares simplesmente por ter ido comprar cigarro em uma padaria, na noite de uma sexta-feira. “Ele me deu voz de prisão, me algemou e me colocou dentro do caveirão. Gente, eu nunca tinha entrado no caveirão. Que sensação horrível. Lugar escuro, fede a sujeira, suor”, explicou Buba. 

Seria levada para a delegacia, não fosse a interferência de moradores e, principalmente, de um outro policial, que alertou o colega para “a merda que você fará, levando-a em um caveirão para a delegacia por desacato”. 

No seu relato, invasões de residência, independentemente de mandados, são comuns. “A minha, eu nem sei quantas vezes, já perdi as contas. Meu pai ainda tenta contar, doce ilusão. Não tenho dedo para tanto. Mas é o tempo inteiro. É acordar na base do tapa, assim”. 

Relatou, ainda, um sequestro, em 2016, sem qualquer acusação contra ela:

 “Três policiais militares do 41º BPM me sequestraram. Me levaram para um lugar totalmente deserto. Depois me fi zeram voltar para o metrô de Acari sozinha. Eu fiquei quase um ano fora da minha casa, fora de Acari. Eu não podia nem ir lá visitar minha família, porque eles continuavam mandando recado, dizendo que iam me matar. Entravam na minha casa, pegavam fotos minhas. Quando eu passei o fim de semana lá, com minha família, escondida, eles descobriram, entraram na minha casa e deixaram recados, rabiscaram fotos minhas me chamando de piranha, de vagabunda. Isso permanece até hoje. Essa perseguição política permanece até hoje”, narrou.

Para o público do teatro Oi Casa Grande, Buba deixou claro que todas essas experiências, que ela e seus colegas de comunidade conhecem de perto, a fazem dizer que eles não sabem o que é democracia. 

“Não só eu e o Raul (Raul Santiago, do Coletivo Papo Reto, também no debate), mas outros companheiros e companheiras de favelas que também estão aqui. A gente não sabe o que é democracia. A gente nunca teve democracia. A gente não está ligado no que é democracia”, explicou.

Lembrou que nos ditos governos de esquerda “foi quando aumentou, absurdamente, o número de assassinatos de jovens negros, de indígenas, de quilombolas, de defensores dos Direitos Humanos”. E questionou em seguida: 

“Que país é esse? Democrático? Esse é o governo de esquerda que a gente está buscando? Que a gente está querendo? Porque se for, acho que é melhor dar a mão aí e caminharem juntos em direção ao trono da velha política. Porque a gente não está vendo nada de novo”.

Logo, lembrou quem paga a conta do chamado combate à violência através de intervenções militares: 

“Essa ditadura que nós estamos vivendo não é uma ditadura que está exterminando o militante de classe média. É uma ditadura que está exterminando o povo negro, favelado”.



Tags: comunidade, favela, intervenção, rio, violência

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