Jornal do Brasil

Domingo, 24 de Setembro de 2017

Rio

Segurança pública atua em eventos privados da elite

Igreja e hotel receberam alto aparato de segurança do estado

Jornal do BrasilHenrique de Almeida

O final de semana foi marcado pelo casamento de Beatriz Barata, neta do megaempresário dos transportes no Rio de Janeiro, Jacob Barata. Após uma manifestação absolutamente pacífica em frente ao hotel Copacabana Palace, onde ocorria a festa, o vandalismo de algum convidado, que jogou um cinzeiro em direção ao público, custou a um manifestante um profundo corte na cabeça.

Poucas horas depois, o Batalhão de Choque dispersou a manifestação com bombas de gás e spray de pimenta. No meio de tudo isso, a utilização de efetivo da Polícia Militar para garantir a segurança de um evento particular.

A cerimônia de casamento de Beatriz, na Igreja do Carmo, no Centro, também recebeu um aporte considerável de policiais. Cerca de 50 homens do 5º Batalhão, em 12 viaturas, faziam a segurança da cerimônia. Esses homens depois se juntariam a oficiais do 19º Batalhão, de Copacabana, para reforçar a segurança do Copacabana Palace.

Segundo a nota da Polícia Militar do Rio de Janeiro, o Batalhão de Choque foi acionado, especificamente para dar segurança à festa no Copacabana Palace, porque após o jovem Ruan Martins Nascimento, de 24 anos, ter sido atingido por um cinzeiro na cabeça, manifestantes teriam tacado pedras em direção ao hotel, justificando a ação da polícia. Quanto aos policiais que fizeram a segurança na igreja do Carmo, nenhuma explicação foi dada.

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Pelo menos dois depoimentos feitos ao Jornal do Brasil desmentem a nota da PM. Diego Nemer, estudante universitário e professor de inglês de 23 anos , diz que foi até a porta dos fundos do hotel pouco antes da Tropa de Choque chegar ao local. Em seu relato, ele diz que viu Ruan logo após ele ter sido atingido pelo cinzeiro:

"Ouvi uma meia dúzia de bombas e alguns estalos, e depois manifestantes correndo. Voltei para o local da confusão, para onde o grupo havia sido disperso pela polícia. Alguns manifestantes retornaram às grades colocadas na frente da entrada, e um menino estava com o rosto ensanguentado. Daí me disseram que havia sido arremessado do hotel um cinzeiro de vidro no rosto do manifestante. Explicações e averiguações foram cobradas da polícia, mas não se buscou, por parte das autoridades, descobrir quem feriu o jovem", disse Nemer, indignado. Sobre as supostas pedras atiradas, Diego disse não ter visto nada. "Só vi os manifestantes exigindo providências, nenhuma pedra foi atirada", conta ele.

Nemer descreveu ainda um detalhe curioso: logo após o incidente, ele e a namorada conversaram com dois policiais do Choque, que se revelaram contra tudo aquilo que ocorrera pouco antes à porta do Copacabana Palace. "Mostrou pelo menos um diálogo da parte deles;esse diálogo fez toda a diferença pra canalizarmos a revolta para a high society na festa. eu falei que com esse dialogo muita coisa ruim pode ser evitada", conta Nemer. Pouco depois, porém, a velha repressão se fez presente. "Um policial sem razão qualquer disparou seu spray de pimenta contra manifestantes proximos de mim, manifestantes que foram educadamente relatar aos policiais com os quais eu conversava sobre a covardia então ocorrida", diz Nemer.

Uma outra pessoa, ligada à Mídia Ninja, que vem cobrindo os protestos e manifestações em todo o país desde junho de 2013, contou que "o máximo que viu foram serem atirados quatro ovos em direção ao hotel", e isso depois do incidente do cinzeiro. No entanto, essa mesma pessoa contou que alguns convidados chegaram a jogar "salgados da festa, camarões e outros alimentos" em direção à manifestação.

Justificativas

Perguntada sobre a razão do Governo do Estado se utilizar de instrumentos de segurança pública para prover a segurança de um evento privado, tal qual a festa de casamento, a Secretaria de Segurança Pública pediu que a reportagem do Jornal do Brasil procurasse a comunicação da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. E apesar do Batalhão de Operações Especiais estar subordinada à secretaria, esta última não quis responder o motivo pelo qual o Bope foi acionado tão rapidamente para ir até o Copacabana Palace na madrugada de sábado para conter a manifestação, que foi pacífica em todos os momentos.

A Polícia Militar, por sua vez, diz que "o Batalhão de Choque foi acionado para conter um tumulto envolvendo um grupo de manifestantes, que realizava um protesto em frente ao hotel Copacabana Palace, na madrugada deste domingo (14.07). Segundo o relato de policiais militares do 19º batalhão (Copacabana), um manifestante foi atingido por um objeto que teria sido jogado da sacada do hotel, o que provocou a reação dos manifestantes, que passaram a jogar pedras em direção ao hotel".

Ainda segundo a PM, "a manifestação iniciada ali ultrapassou os limites do direito, por iniciarem ataques a pessoas e patrimônios alheios nas ruas da cidade do Rio de Janeiro, tomando tal proporção que o batalhão especial (Choque) precisou ser acionado". A nota é finalizada dizendo que "cabe a polícia militar garantir o direito de todos".

Vale destacar que já houve protestos em casamentos de políticos e autoridades. Um destes foi o da filha do senador Álvaro Pacheco, em 1988, na Igreja do Largo de São Francisco, no Rio. O então presidente da República José Sarney era um dos padrinhos.

Na época, manifestantes fizeram ato contra a ostentação e os altos valores gastos na cerimônia, mas nem de perto, apesar da presença da maior autoridade do Executivo no evento, os protestos tiveram a proporção dos da filha de Jacob Barata.

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