Jornal do Brasil

Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017

Rio

Dom Eugenio Sales, um cardeal que se impôs e fez História 

Jornal do BrasilMarcelo Auler 

Ao longo de seus 91 anos de vida, em especial nos 58 anos de episcopado, 30 deles à frente da igreja no Rio de Janeiro, Dom Eugenio Sales, que faleceu na noite de segunda-feira (9), fez História.

Na administração dos católicos, criou igrejas (em torno de 60), incentivou a vocação sacerdotal de jovens – ordenou 215 sacerdotes – sagrou mais de 20 bispos, e ajudou a igreja a fazer crescer seu patrimônio, ainda que às vezes com gosto arquitetônico discutível, como a Catedral metropolitana da Avenida Chile. 

Mais do que um administrador, porém, Dom Eugenio era um pastor que matinha controle do seu rebanho. Por isto, era um bispo polêmico. Não foram poucos os sacerdotes que se queixavam dele. Nos anos 70, em pleno regime militar, fazia questão de visitar os presídios junto com o coordenador da pastoral penal, padre Bruno Trombeta. Não havia Páscoa, nem Natal em que o cardeal não passasse em pelo menos uma cadeia pública. Nelas, com a imprensa presente, celebrava para todos os presos e ia às celas dos prisioneiros políticos, muitos dos quais não confessavam a mesma fé ou, simplesmente, eram ateus.

Em maio de 2000, pela primeira vez Dom Eugênio falou ao jornalista Fritz Utzeri, do Jornal do Brasil, sobre um trabalho que desenvolveu em sigilo entre 1976 e 1982, quando acolheu e protegeu mais de cinco mil refugiados políticos de toda a América Latina. Ele autorizou seus auxiliares a alugarem cerca de 80 apartamentos para abrigar estes perseguidos das ditaduras militares do cone sul. Algumas vezes, como o o jornal relatou, policiais argentinos eram infiltrados nos grupos de refugiados, mas acabavam sendo descobertos.  

Mas, mesmo amparando o rebanho preso, ele controlava a movimentação não apenas dos seus sacerdotes como dos próprios irmãos de episcopado. Em meados dos anos 70, Dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, recusou-se a dar uma entrevista formal para o jornal Pasquim alegando “um acordo com meu irmãozinho Eugenio que me pediu para não falar quando viesse ao Rio”. A entrevista acabou sendo feita na forma de um questionário. 

O dominicano Frei Betto era outro que Dom Eugenio não gostava – e, se pudesse, impedia - que se manifestasse no Rio, assim como não nutria nenhuma simpatia pelas ideias dos irmãos Boff - Leonardo e Clodovis. Leonardo, quando ainda pertencia ao clero, foi proibido de falar aos seus irmãos franciscanos no convento. Dom Eugênio ameaçou expulsá-los do Rio caso dessem vez às pregações de Leonardo. Já Clodovis foi dispensado da PUC onde dava aula. Recorreu a Roma, ganhou o processo, mas jamais voltou a uma sala: recebia o ordenado de professor, mas continuou impedido de lecionar na universidade.

Polêmica também gerou quando impediu, em 1989, que a escola de Samba Beija-Flor desfilasse com a estátua do Cristo Redentor,provocando um dos mais célebres protestos do carnavalesco Joãosinho Trinta: ele colocou na avenida a estátua coberta por um plástico preto com uma faixa com os dizeres “Mesmo proibido, olhai por nós”, deixando clara a censura sofrida.

Ainda que evitasse maiores manifestações políticas na sua jurisdição, Dom Eugenio agia nos bastidores junto aos militares, intercedendo em favor daqueles que estavam presos e sofriam torturas. Mantinha uma linha direta com os militares, com todos eles, dos mais duros àqueles considerados mais abertos ao diálogo. Imunha-se, sempre de maneira firme, mas delicadamente na forma. Abrigou mais de quatro mil refugiados políticos, deu assistência às famílias dos desaparecidos, ajudou a evitar outros desaparecimentos. 

Agia, à sua maneira, preferencialmente sem alardes. Bem distante do jeito de atuação de outro cardeal que marcou época, Dom Paulo Evaristo Arns, pastor da igreja em São Paulo. Embora adotassem métodos diferentes e fossem considerados de alas opostas no seio da igreja e da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – Dom Eugenio tido como conservador, Dom Paulo como progressistas – os dois tiveram algumas passagens juntas. Uma delas, em março de 1978, quando foram recebidos, com outras personagens civis brasileiras, pelo presidente norte-americano Jimmy Carter, na casa da Gávea Pequena.

Na sua gestão à frente da igreja carioca, Dom Eugênio desenvolveu uma série de pastorais – Penal, das Favelas, do Menor -, muitas delas entregue à coordenação de leigos. Construiu o prédio anexo ao Palácio São Joaquim onde juntou os diversos setores da igreja que se espalhavam pela cidade. No Sumaré, onde residia, ergueu um prédio confortável onde reunia nos finais de semana empresários, intelectuais, políticos, membros do governo e da oposição para debates sobre temas diversos, em uma espécie de pastoral com os formadores de opinião.

Ele também protestava a seu modo, como ocorreu ao se deparar com um cadáver jogado na estrada do Sumaré, seu caminho entre a residência oficial e o Palácio São Joaquim. Desceu do carro, abençoou o corpo e fez questão de noticiar o fato, marcando sua repugnância pela violência na cidade. Pouco tempo depois reuniu autoridades no Centro de Estudos do Sumaré para discutir a questão da violência. 

Criado no sertão nordestino, Dom Eugenio era de Acari, no interior do Rio Grande do Norte. Nasceu em 8 de novembro de 1920. Seus pais - Celso Dantas Sales e Josefa de Araújo Sales - geraram outro bispo católico, Dom Heitor de Araújo Sales, Arcebispo Emérito de Natal (RN).

Foi no colégio Marista da capital potiguar que ele despertou para a vida sacerdotal. Com 11 anos, ingressou no seminário menor na mesma cidadade, mas seus estudos de Filosofia e Teologia foram em Fortaleza (CE), no Seminário da Prainha. Em 21 de setembro de 1943 foi ordenado padre pelo bispo de Natal Dom Marcolino Esmeraldo de Sousa Dantas, na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Guia, em Acari, onde foi batizado.

Dedicou-se, como sacerdote, às igrejas do interior do Rio Grande do Norte. Mas não por muito tempo. Em 1954, com 33 anos e apenas 11 como padre, foi nomeado bispo auxiliar de Natal pelo Papa Pio XII. A sagração deu-se em 15 de agosto.

Em 1962, foi designado administrador apostólico da Arquidiocese de Natal. Dois anos depois mudou-se para Salvador, na Bahia, onde exerceu a função de administrador apostólico da Arquidiocese. Galgou ao posto de Arcebispo, Primaz do Brasil de São Salvador da Bahia em 29 de outubro de 1968, por decisão do Papa Paulo VI.

Aos papas, Dom Eugenio dedicava total fidelidade, mas por Paulo VI tinha um carinho especial a ponto de presenteá-lo, a cada ida a Roma, com uma caixa de mamão papaia. Foi no potificado de Paulo VI que ele ganhou o titulo de cardeal (1969) e dois anos depois foi transferido para o Rio de Janeiro, após o falecimento de Dom Jaime de Barros Câmara.

Como cardeal do Rio organizou duas vindas do papa João Paulo II ao Brasil – 1980 e 1987 – fazendo questão de levá-lo à favela do Vidigal, quando muitos acharam que isto seria uma loucura. Em 2005, em Roma, celebrou uma das missas solenes nas exéquias do papa.

Já cardeal emérito – com mais de 80 anos – e, portanto, sem participar do conclave que escolheria o novo papa, dom Eugenio vibrou ao saber que o sucessor de João Paulo II seria o cardeal Joseph Ratzinger, que adotou o nome de papa Bento XVI. Dele recebeu uma carta especial ao completar seus 90 anos, em 2010. 

O cardeal emérito do Rio faleceu na noite de segunda-feira, na residência oficial do Sumaré, vítima de um infarto. Seu velório ocorrerá durante toda a terça-feira (10) na Catedral Metropolitana da Avenida Chile. O enterro, na mesma Catedral, ocorrerá às 15h da quarta-feira.

Tags: Rio, católico, eugênio, história, igreja, morte

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