Pela primeira vez um chefe do tráfico de uma comunidade carioca não pacificada rendeu-se às autoridades. Cristiano Santos Guedes, o "Puma", não é dos traficantes mais conhecidos, mas ele estava foragido há dois anos, tem quatro mandados de prisão pendentes e liderava o movimento no Morro da Quitanda, em Costa Barros, na Zona Norte. Na mesma área, uma mulher de 19 anos morreu vítima de bala perdida na terça-feira (26).
Ao ser apresentado à imprensa na tarde desta quarta-feira (27), na secretaria de Segurança Pública do Rio, "Puma", da facção "Amigo dos Amigos", apontou a política de pacificação do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, como fator fundamental na decisão de se entregar.
"Eu sei que a pacificação pode chegar lá na região que eu comandava. É melhor me render do que correr o risco de ser morto em confronto. Além disso, não aguentava mais ficar escondido. Saí da cadeia, em semiaberto, há mais ou menos uns cinco anos. Vivo escondido desde então. Tenho sete filhos e quero vê-los crescer, acompanhá-los. É melhor pagar o que devo logo e depois ter liberdade para cuidar da minha vida como uma pessoa comum", apontou o criminoso. Seu contato com as autoridades foi através da ONG AfroReggae. "É melhor sair agora do que deixar para largar esta vida mais tarde, com grande chance de ser morto", acrescentou.
O AfroReggae é conhecido por intermediar rendições de bandidos de diversas facções criminosas e até de grupos paramilitares, como as milícias. Nos últimos quatro anos, segundo dados da ONG, o número de bandidos que se rendeu chega a 3.500.
Para o subsecretário de Inteligência da secretaria Segurança Pública, Fábio Galvão, a atitude do ex-chefe do Morro da Quitanda serve de incentivo a outros criminosos.
"Vivemos um momento irreversível no estado do Rio de Janeiro. O momento de quem quer sair do tráfico ou de outra atividade ilícita e se entregar é agora. O Nem (líder do tráfico de drogas na favela da Rocinha), por exemplo, foi preso em novembro do ano passado. Antes de ser preso, ele negociava uma rendição, mas, ao que me parece, desistiu. Talvez fosse melhor ter se rendido. Eu acredito na ressocialização destas pessoas", ressaltou. "Nenhum dos bandidos que já se entregou ou que venha a se render conta com benefício nenhum. Vão pagar pelos seus crimes", afirmou o subsecretário.
O traficante chegou ao prédio da secretaria de Segurança acompanhado de outros traficantes que também já se afastaram da vida criminosa e hoje cumprem pena em regime aberto. Entre eles, estava Francisco Paulo Testas Monteiro, o "Tuchinha", ex-integrante do Comando Vermelho e ex-chefe da quadrilha que comandou a comunidade da Mangueira.
Outro que marcou presença e posou para fotos foi Diego da Silva dos Santos, o Mister M. Ele atuava no Complexo do Alemão até a ocupação do conglomerado, em novembro de 2010. Atualmente, atua como modelo e aprende a editar vídeos para se profissionalizar nesta área.