Por 34 anos, o lixão de Gramacho, em Duque de Caxias, se tornou um exemplo do que há de mais desastroso na condução de problemas ambientais. A partir deste domingo, o maior aterro sanitário da América Latina vai se tornar apenas uma lembrança ruim. Não será mais possível vivenciar a dura realidade de dezenas de catadores que viviam ali do lixo urbano, químico, hospitalar e industrial das cerca de 200 fábricas que compõem o polo industrial da Baixada Fluminense.
Mas as pessoas que participam da primeira edição do Green Nation Fest, até 7 de junho na Quinta da Boa Vista, zona norte do Rio, ainda terão oportunidade de refletir sobre capítulo tenebroso que foi escrito ali, às margens da Baía de Guanabara. O fotógrafo Gustavo Rocha, que tem formação em engenharia ambiental, expõe no estande da Universidade Estácio de Sá no festival uma série de fotografias tiradas no lixão.
"Passar um dia em Gramacho é uma experiência que todo mundo deveria ter. Uma experiência única de vida. Lá existe uma população eclética. Pessoas felizes que acham que estão tendo dignidade e outras mais revoltadas. Mas o ambiente é completamente inapropriado para a condição humana", afirma o fotógrafo.
Gustavo teve pouco tempo para captar as imagens que estão no evento da Quinta da Boa Vista. "O problema de fotografar em Gramacho é que as pessoas não gostam de aparecer. Tive 20 minutos. Sabia que nem podia levar a câmera, mas estou sempre com ela", conta.
O tempo para fotografar em Gramacho foi curto, mas os reflexos desta exposição são eternos. "Vou confessar: saí de lá e tive uma crise de choro. Você vê as pessoas brigando por pedaços de lixo. E você se sente responsável por isso", admite Gustavo. "O mais duro é saber que aquela não é a pior condição do Brasil. Há lixões piores por aí e não vemos pressão nenhuma das pessoas para mudar."
É este tipo de reflexão que o fotógrafo gostaria que os visitantes da exposição tivessem. "É um projeto para ir, olhar, pensar e mudar. As pessoas têm vários níveis de consciência. A gente faz este trabalho para as pessoas refletirem."
Com sorte, os visitantes podem encontrar o próprio autor das fotos no local e bater um papo com ele. Vão saber, por exemplo, que um segurança que foi retratado está no lixão para resolver os confrontos por partes de lixo mais valiosas. "Tem catador que chega a ganhar R$ 500 por dia. Mas precisava estar naquelas condições?"