Depois de muita confusão sobre o pagamento de indenização para os catadores do Aterro Sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, o lixão - considerado o maior da América Latina - foi oficialmente fechado. Os dejetos do último caminhão foram despejados pontualmente às 11h.
De carona em um trator, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, despejaram terra sobre a remessa final de lixo e comemoraram a desativação do Aterro de Gramacho.
Uma placa foi instalada no portão de entrada com o aviso: "Aterro Metropolitano de Gramacho fechado. Proibido jogar lixo neste local". Além de representantes dos governos municipal, estadual e federal, a cerimônia também contou com a presença de dezenas de catadores.
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A despedida do grande grupo que sobrevivia graças aos restos recolhidos no lixão foi marcada por um abraço simbólico.
Catadores lamentam fim de lixão
Às margens da Baía de Guanabara, Gramacho recebia todos os dias cerca de 10 mil toneladas de lixo que ameaçavam o ecossistema da região. O lixo agora será despejado na Central de Tratamento de Resíduos (CTR) de Seropédica, também na Baixada Fluminense. De acordo com a Prefeitura do Rio, a CTR é mais moderna e tem o solo triplamente impermeabilizado, reduzindo os danos ao meio ambiente.
Rico em histórias, os personagens do maior aterro sanitário da América Latina serviram de inspiração para filmes, documentários, e atualmente uma novela. Em Gramacho, os catadores trabalhavam separando os objetos recicláveis. Em Seropédica o trabalho será abolido.
“Na CTR não teremos a figura do catador, que está sendo indenizado para que busque uma nova atividade”, explicou o secretário municipal de Conservação, Carlos Roberto Osório.
Cerca de 250 catadores ainda estavam no lixão nesta quinta-feira. Muitos trabalham há décadas e lamentaram o fechamento. “Muito triste, a maioria trabalha junto há muitos anos. Lá em Seropédica não vão reciclar nada, é uma pena”, disse o catador Sílvio da Silva Melo, de 40 anos, há 18 anos trabalhando no lixão.
Pai de três filhos, Sílvio queixa-se, pois, além de perder o salário, pago pela empresa de coleta, também vai perder o seu bico na Feira de São Cristóvão.
“Na feira eu vendia os celulares, relógios, tênis, tudo de diferente que achava”, lamenta.
Atualmente o aterro está sendo retratado em uma novela. Flavio Basílio, 48 anos, conta que a realidade no lixão é bem diferente da mostrada.
“Não tem nada a ver. Na novela parece que os catadores fazem um trabalho escravo. Trabalhei 12 anos em cozinha, de carteira assinada. Mas vim trabalhar aqui e estou há 20 anos”, afirmou.
O catador Paulo Pereira, 34 anos, disse ficar triste, mas reconhece que é hora de abandonar o lixão e buscar outra atividade.
“Era muito perigoso. Muita gente se machucou nessa sujeira e acabou perdendo as pernas, os pés. A partir de agora vou trabalhar fazendo mudanças. Meu primo tem um caminhão e vamos trabalhar juntos”, disse Paulo.
A Secretaria de Conservação e Serviços Públicos informou que os recursos para indenização dos trabalhadores estarão disponíveis a partir desta sexta-feira. Todos os 1.600 catadores cadastrados serão indenizados com cerca de R$ 14 mil cada um.
A Prefeitura do Rio também anunciou uma parceria com a Central Única das Favelas (Cufa) para acompanhamento e capacitação profissional dos catadores após o fechamento do lixão.