A favela é símbolo da cidade do Rio de Janeiro, atraindo turistas do mundo inteiro, que costumam reservar um ou dois dias de sua temporada para conhecer as favelas cariocas munidos de muito filtro solar, repelente, à bordo de um jipe digno de filmes de Indiana Jones. Mas uma relação mais íntima com esta construção tipicamente urbana já faz parte da rotina dos cariocas e dos turistas que visitam a cidade, seja através de albergues localizados dentro das comunidades, ensaios de escola de samba ou festas que podem custas mais de R$100 o convite.
A favela, hoje, é bem diferente daquele famoso clichê cantado em tantas vozes e remontado em filmes e programas de TV. A aproximação com o asfalto se deve a diversos fatores, mas o mais importante deles certamente se chama Unidade de Polícia Pacificadora, que devolveu aos moradores das comunidades a tranquilidade e a dignidade que lhes foi tirada no momento em que passaram a viver sob o poder paralelo de bandidos e traficantes.
Mas ainda falta um longo caminho para esta integração ser completa e a questão tem mobilizado tanto as políticas públicas dos governos municipal, estadual e federal, quanto a sociedade civil. O tema foi discutido na manhã desta terça-feira em um seminário que acontecerá até quarta-feira (24), no centro de convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN). O evento é uma iniciativa do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS) e o Banco Mundial, em parceria com a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, a Firjan e o Sebrae/RJ. O objetivo é levar das discussões as impressões, diagnósticos e novas ideias para que a integração entre essas duas esferas da sociedade seja efetiva.
Deborah Wetzel, diretora do Banco Mundial do Brasil, parabenizou o processo de urbanização da cidade, contando que ficou muito preocupada quando, na ocasião de uma visita do presidente da instituição ao Rio, foi programada uma ida ao Pavão-Pavãozinho. Ela já havia ido à comunidade e se assustou com o que vira. Porém, ao voltar lá no ano passado viu o local totalmente transformado.
“Igualdade e inclusão são as prioridades do Banco Mundial, um elemento-chave para o crescimento do Rio. Queremos que esta seja uma cidade integrada e inclusiva e fechamos parcerias para isso”, disse Wetzel.
Não à toa o Banco Mundial é o maior credor do Rio, dito nas palavras do próprio prefeito Eduardo Paes que, durante o evento, afirmou que recentemente fechou um empréstimo no valor de US$ 1 bilhão com a instituição. O prefeito lembrou que o processo de integração física das favelas com a cidade já vem acontecendo há muito tempo no Rio e que o trabalho feito hoje é fruto de todas essas experiências, bem sucedidas ou não.
“Fomos evoluindo ao longo do tempo. Tivemos o Favela-Bairro, o Morar-Carioca, os investimentos do PAC. Mas a integração física não é nosso maior desafio. Para isso basta ter bons profissionais e dinheiro no bolso. O grande desafio é a prestação de serviços. Conseguir levar a todos da comunidade os serviços que eles precisam, como coleta de lixo, saneamento básico, educação, saúde, entre outros”, afirmou.
Ele citou a importância da fiscalização da sociedade civil, que costuma dar à prefeitura um diagnóstico preciso para que se busque uma solução. Paes lembrou o exemplo do levantamento feito por uma pesquisa da Firjan sobre coleta de lixo, “uma provocação que fez o governo refletir”.
“Uma boa política pública se constrói a partir de um bom diagnóstico. E a sociedade civil pode nos ajudar a construir este diagnóstico. A integração não acontece quando os serviços não são prestados a todos na comunidade”, avaliou.
O ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, Moreira Franco também esteve presente no evento e fez um discurso provocativo, afirmando que a questão da integração entre asfalto-favela não deveria ser debatida, pois essa integração já existe. Na opinião do ex-governador do Rio, o que precisar ser revista e diminuída é a desigualdade entre os moradores das duas esferas.
“ A questão fundamental para o país é combater a desigualdade social. Lula nos mostrou que é possível desenvolver distribuindo renda. Antes, achavam que era preciso primeiro crescer o bolo, para depois dividir. O Brasil hoje já percebeu que a questão não é comida, a fome, mas sim a democratização das oportunidades”, disse.